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Prefácio

Todas as pessoas que deram um mergulho no mundo de criptomoedas — um mergulho com a cabeça, não necessariamente com o bolso — descrevem um momento "buraco do coelho". O coelho da história de Alice no país das maravilhas – ou a julgar pela popularidade de memes, o coelho do filme Matrix – é o momento onde a Alice se debruça sobre a toca do coelho e subitamente cai em um poço muito mais fundo que ela jamais poderia supor.
Provavelmente, o meu momento “toca do coelho” foi em 2012. Até aquele momento, tinha ouvido falar muito do tal do Bitcoin, mas o achava apenas uma curiosidade longínqua para pessoas que compram ouro e profetizam o apocalipse financeiro. Nessa época, o Bitcoin já estava 'popular', aparecendo em séries de tv e podcasts que eu acompanhava (Pergunte a dez pessoas quando Bitcoin estava 'popular' lhe trará dez respostas distintas, mas a resposta sempre será mais ou menos na época em que a pessoa começou a estudar o assunto pela primeira vez).
Nesse período, foi quando eu encontrei uma palestra no Youtube, talvez de 2011, falando sobre como o Bitcoin seria o dinheiro programável da internet. Ainda não existiam muitas outras moedas e o palestrante descrevia um mundo diferente em que um dinheiro sem bancos poderia ser administrado não somente por qualquer pessoa, mas também por qualquer não-pessoa. Carros, torradeiras, máquinas de café, empresas, organizações, sindicatos, coletivos, peças de arte, entre outros. Nessa lógica, qualquer objeto que fosse imbuído com um chip poderia ganhar esse poder transacional.
A ideia de objetos dotados de super inteligência já foi explorada profundamente pela ficção científica ao longo de mais de um século, sempre com resultados curiosos. Mas objetos dotados da capacidade de “transacionar”? Isso era uma novidade que parecia ter pulado dos livros de ficção espacial diretamente para os dedos de qualquer um. Imagine uma peça de arte que com a capacidade de gerir seus próprios ganhos e de contratar um escultor para poder se reproduzir – como o descrito pela artista Primavera De Filippi –, trazendo uma nova dimensão inexplorada para o futuro.
Mas essa visão não era compartilhada pela maior parte da comunidade do Bitcoin que estava mais focada em trazer o padrão ouro de volta para o dinheiro da internet do que dar uma carteira para máquinas de lavar. Foi aí que eu entrei mais e mais no buraco e comecei a procurar outras pessoas que pensavam como eu. Aqui, eu encontrei a comunidade do Ethereum. Em 2014, este era um grupo tão pequeno que a maior parte de suas discussões ocorriam em um ou dois fóruns e havia grandes chances de um de seus posts ser respondido pelos fundadores da moeda. Na época, eu baixei os softwares para acessar a rede de teste, vi que eram tão fáceis de usar quanto uma estação espacial russa e esbocei um humilde redesenho. Esse design, feito em casa, por empolgação, acabou me levando a uma chamada de vídeo com Gavin Wood, um dos fundadores da Ethereum (e, posteriormente, da Polkadot) que me explicou pela primeira vez, o que ele chamava de “Web3”. Essa chamada acabou virando uma oferta de emprego e em setembro, eu larguei todos os empregos que tinha (uma startup que tinha fundado com amigos, um site que eu gerenciava e mais uma série de freelas) para me dedicar inteiramente ao Ethereum. Dois meses depois, eu estaria viajando para Berlim para encontrar o resto da equipe e apresentar a eles a minha própria visão do que poderia ser a próxima internet.
Nos próximos anos, tive o grande privilégio de ver essa revolução acontecer de perto. Foi sob minha liderança que criamos o primeiro aplicativo que permitia usar contratos inteligentes sem precisar programar, pois o app criava uma interface amigável automaticamente. Foi também a primeira wallet que usou tokens – o padrão ERC-20 (leia o capítulo sobre tokens!) foi feito por nossa equipe especificamente para isso! Estive presente em várias salas quando grandes ataques hackers aconteceram, ajudando como podia (nem que fosse trazendo umas rosquinhas quando sabia que minha capacidade técnica estava aquém do que era necessário para fazer algo!). Quase todos esses projetos falharam, mas as ideias que foram usadas em sua construção muitas vezes cresciam e tornavam-se projetos maiores do que se poderia imaginar. Um exemplo é o ENS, um projeto que deveria durar apenas alguns meses e tinha como foco tornar endereços mais legíveis e amigáveis, mas acabou sendo reconhecido como um dos projeto de nomes pioneiros da Web3. Depois, quando saí da Fundação Ethereum, continuei focado em tentar traduzir esse mundo complexo para experiências mais simples, fosse em projetos que reduziriam a fricção, em palestras ou em escritos, como este.
Desde quando iniciei, já se passou mais de uma década desse meu momento de procurar o fundo do buraco do coelho. Muitas ideias promissoras apagaram-se lentamente ou implodiram em si mesmas de forma espetacularmente desastrosa , algumas surpresas tomaram uma popularidade que ninguém imaginaria (leia o capítulo sobre NFT!), mas o buraco continua sem ter um fim à vista. Caso você esteja começando agora a entrar nesse buraco, espero que seus próximos dez anos sejam tão incríveis quanto foram os meus primeiros dez. Também espero que você nos acompanhe e nos ajude a construir esse futuro.
Um futuro que valha a pena viver é para mim o tema mais importante e o que mais me atraiu nas decisões da minha carreira. A geração que viu a passagem do milênio é uma que cresceu com o excitante prospecto de viver o futuro prometido por filmes e livros. Mas este futuro, até agora, chegou surrupiado: nos roubaram as aventuras espaciais, os robôs que temos nos espionam mais do que nos servem, e o colorido bazar que era a internet nos anos 90 foi substituído por cinco ou seis mega complexos de shopping.
Mesmo assim, ainda existem algumas áreas em que o futuro nos surpreende, em que qualquer um, vindo de qualquer lugar, pode criar coisas novas e impressionantes. Um local em que um garoto brasileiro sem nenhum contato ou acesso pode participar de uma revolução sem que para isso fosse necessário sair de sua casa no Rio de Janeiro. Foi este o meu caso e espero que também possa ser o seu. Para isso, mergulhe nos capítulos do livro a seguir, é uma primeira forma de entrar no "buraco do coelho". Sejam bem-vindos a esse admirável e transformável mundo novo!
Alexandre Van de Sande – Chefe de design do Mist Browser; cofundador do ENS.
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
as nossas vidas.
Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro