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15. Como fazer a custódia dos próprios ativos

Fazer corretamente a custódia de seus criptoativos é uma das coisas mais fundamentais para quem busca se expor ao setor de criptomoedas. Se, por um lado, estar em um mercado em que existe a opção de não envolver intermediários dá mais liberdade e menos custos aos usuários, o preço a se pagar por isso pode ser caro dependendo das circunstâncias. É extremamente importante para um investidor estar ciente de como um endereço de carteira em blockchain funciona e quais as opções de custódia disponíveis para aderir ao que melhor se encaixa as suas necessidades e desejos.
O conceito de custódia representa o ato de proteção de ativos contra eventuais problemas, sendo que o custodiante é o agente designado para guardar esses recursos, seja dinheiro, ações, barras de ouro, ativos digitais ou quaisquer outros bens de valor, tanto de pessoas físicas, quanto de pessoas jurídicas.
Quando se trata de custódia de ativos digitais, a forma como isso ocorre difere dos outros ativos. O agente custodiante de ativos digitais não armazena nenhum dos ativos na prática. Isso porque eles estão registrados na blockchain de forma descentralizada e não existem quaisquer representações físicas deles. Em vez disso, o que o custodiante guarda são as chaves privadas dos usuários, o que, por sua vez, concede acesso aos fundos contidos na carteira.

15.1 Como funciona uma carteira cripto

Toda carteira de criptomoedas possui duas chaves: uma pública e uma privada. Podemos pensar numa analogia na qual a chave pública da sua carteira funciona como o seu endereço de e-mail. Essa é uma informação pública que todos podem saber. Não há problema com isso, pois ninguém poderia tomar posse de sua conta a partir dessa informação.
Além dela, há também a parte privada do seu e-mail, no caso a sua senha de acesso à conta. Essa, de fato, somente você deve saber, pois ela dá acesso a todas as informações que estão na sua conta, como também a possibilidade de enviar novos e-mails.
A ideia é praticamente igual para uma carteira de criptoativos, visto que ela consiste em um endereço público e uma chave privada. Qualquer pessoa pode depositar criptomoedas em uma carteira a partir de um endereço público, assim como você pode enviar um e-mail apenas possuindo o endereço de outra pessoa. Mas o acesso à caixa de entrada ou ao envio de novos e-mails não é possível sem a sua senha, assim como não é possível movimentar recursos sem a chave privada de uma carteira.
Neste capítulo, vamos descobrir mais sobre como funciona a custódia de ativos digitais e sua importância no mercado de criptomoedas. É importante que um investidor aprenda a armazenar seus criptoativos de uma forma que equilibre a segurança com a facilidade de uso. Atualmente, há duas formas de custodiar seus criptoativos: fazendo a própria custódia ou delegando a terceiros.

15.2 Realizando a própria custódia

A modalidade de custódia própria é a mais ideológica no setor cripto e corresponde à famosa frase “not your keys, not your coins”, ou seja, “não são suas chaves, não são suas moedas”. A ideia que a frase passa é a de que ninguém pode depender de terceiros para assegurar a custódia de seus ativos, além de mostrar os eventuais riscos que isso implica. Ou seja, não ter o controle total sobre todos os aspectos dos seus recursos permite que você perca controle dos seus tokens/moedas.
Mesmo assim, é necessário entender que ser seu próprio guardião significa ter controle total sobre sua carteira e também significa que você assume todos os riscos em caso de perdas ou hacks que eventualmente sofra. Dentro das opções de custódia própria, existem dois tipos: as hot wallets e as cold wallets.

15.2.1 Hot wallet: Armazenamento on-line

O objetivo das hot wallets é que o usuário tenha mais praticidade no dia a dia para movimentar seus fundos. Normalmente, elas são soluções gratuitas e mais fáceis de usar. Nesta modalidade de custódia, a chave privada fica armazenada em seu dispositivo eletrônico, que possui contato com a internet. Isso significa que existe um risco a mais de sofrer hack nesse dispositivo de armazenamento. Esse tipo de carteira também pode ser chamado de software wallet. Ela pode ser uma extensão em seu navegador de internet, como a Metamask, ou uma aplicação que o usuário baixa em seu computador, como a Atomic Wallet.

Figura 117 - Metamask: uma das wallets mais populares do mundo

Figura 118 - Atomic Wallet: outra opção de wallet

Ao utilizar essas soluções, o investidor deve tomar muito cuidado com vírus e ataques de phishing. Além de ter atenção com os sites acessados, é importante ter um bom antivírus e conhecer o mínimo necessário de segurança cibernética. Qualquer deslize e todos os fundos podem ser roubados.

15.2.2 Cold wallet: Armazenamento offline

O objetivo das cold wallets é que o usuário tenha mais segurança para armazenar seus fundos contra ataques hackers. Essas soluções são menos práticas para se usar no dia a dia, sendo melhores para armazenar os ativos com maior segurança e por períodos mais longos. Nesta modalidade de custódia, a chave privada fica armazenada sem conexão direta à internet, através de um dispositivo físico. Uma cold wallet pode ser tanto uma hardware wallet quanto uma paper wallet.
Uma hardware wallet é um dispositivo pago utilizado para fazer a custódia de criptoativos. Elas são extremamente seguras e capazes de armazenar chaves privadas e assinar transações com a autorização do usuário. Além de não possuir conexão direta com a internet, um dos pontos que a torna mais segura que as outras alternativas é a necessidade de um tipo de autenticação de dois fatores para assinar novas transações. Isso diminui a chance de erro por impulso ou falta de atenção do usuário. Elas são portáteis e tem, normalmente, o tamanho de um pen-drive. As melhores soluções disponíveis atualmente são a Ledger Nano e a Trezor.

Figura 119 - Ledger wallet

Figura 120 - Trezor Wallet

Já uma paper wallet nada mais é que o armazenamento de sua chave privada de forma escrita, em código ou não, em uma folha de papel ou algo semelhante. Apesar de ser uma das formas mais simples de custódia, também é uma das mais seguras contra hackers. O ponto negativo desse tipo de custódia é o risco de eventuais danos causados a esse papel que o tornem ilegível, como incêndios, enchentes, decomposição por fungos e roubo, ou até mesmo a perda do papel. Como forma de diminuir esses riscos, existem soluções de metais, pensadas para esse exato caso de uso, por exemplo a Stackbit.

Figura 121 - Stackbit: solução pensada para uma paper wallet

15.3 Custódia por terceiros

Há duas formas de custódia por terceiros. Uma é a custódia feita por meio de corretoras centralizadas e a outra é a custódia institucional.

15.3.1 Custódia por corretoras centralizadas

A custódia por corretoras centralizadas é a mais usual, principalmente para usuários novatos. Isso porque essas corretoras costumam ser o primeiro contato entre o usuário e o universo das criptomoedas, visto que elas oferecem fácil acesso à compra de criptoativos através de moeda fiduciária. Pela comodidade e facilidade, além da semelhança com o mercado tradicional, muitos preferem não sacar para suas carteiras pessoais os tokens comprados nas corretoras centralizadas. Assim, eles ficam na carteira da própria corretora.
Entre os pontos para ficar atento em relação a esse modelo de custódia está a reputação da instituição utilizada. Existem opções boas e ruins. Definir se é vantajoso ou não esse tipo de custódia em detrimento da custódia própria decorre muito da instituição escolhida e da capacidade do usuário de investir tempo e se responsabilizar pela gestão de seus próprios ativos. Algumas corretoras são regulamentadas em boas legislações, como a Coinbase e a Kraken nos Estados Unidos, já outras possuem sede apenas em paraísos fiscais e são pouco transparentes. Esse é apenas um dos fatores importantes levantados em uma análise de corretora. Um bom ponto inicial para esse levantamento pode ser o ranking de corretoras elaborado pela Kaiko, uma das maiores casas de research do mundo. Ele pode ser conferido aqui.

Figura 122 - As corretoras mais seguras do segundo semestre de 2022

15.3.2 Custódia institucional

A custódia institucional é direcionada para empresas e investidores com grandes quantidades de capital, sendo completamente inviável ao investidor do varejo. Elas são mais seguras que a custódia por corretoras centralizadas, mas, em contrapartida, possuem menos liquidez e praticidade. O processo de diligência dessas instituições é profissional, com o processo envolvendo muitos agentes, como técnicos, advogados e auditores. Essa custódia é realizada de forma que as chaves privadas sejam fracionadas em algumas partes (impossibilitando a movimentação dos fundos por uma única pessoa) e armazenadas em cofres ou bunkers de segurança máxima. A maioria das alternativas do mercado oferece seguros em caso de perda ou roubo dos recursos. Seu ticket mínimo de investimento flutua na casa dos US$ 500 mil a US$ 1 milhão. Se você investe em cripto através de fundos de investimentos, provavelmente esse é o tipo de custódia feito pelos gestores do fundo. É importante estar atento ao tipo de custódia utilizado e, em caso de custódia institucional, saber quem é o custodiante. Entre os principais players do setor temos a Kingdom Trust, a Gemni e a Coinbase Custody. Essas empresas possuem seguro e são reguladas em boas legislações (EUA).
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
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Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro