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8. Descentralizando as Redes Sociais

A possibilidade de migrar todas as suas conexões e conteúdos do Instagram para o TikTok. A chance de escolher a quantidade de propagandas, também conhecidas como “adds”, que aparecem no seu feed, e melhor, ganhar a cada add consumido. Poder definir exatamente quais dos seus dados serão compartilhados e com quem. Esse é o tipo de experiência que as redes sociais descentralizadas podem trazer aos usuários.
Essa narrativa, que ganhou o nome de "DeSoc", vem atraindo investidores e desenvolvedores a repensarem os modelos de redes atuais, fazendo a união do social com a descentralização. As DeSoc significam a integração das tecnologias criptográficas aplicadas às plataformas sociais que, da mesma forma que nos games, terão grande impacto no modelo de negócio e distribuição de valor do setor.
Mas antes de nos aprofundarmos em como a tecnologia criptográfica impactará as redes sociais, é importante contextualizar melhor esse segmento. Hoje, existem cerca de 3,8 bilhões de usuários de mídias sociais e, com o acesso aos smartphones, cada vez mais baratos em todo o mundo, esse número aumenta anualmente.

Figura 78 - Número de usuários de redes sociais entre 2018 - 2022 e previsão até 2027

Fonte: Statista
As redes sociais se tornaram uma parte importante da vida da maioria das pessoas. As estimativas atuais colocam o uso em mais de duas horas por dia, em média. E, embora o crescimento do tempo gasto, aparentemente, tenha se estabilizado nos últimos tempos, as plataformas de mídias sociais desempenham um papel importante em nosso dia a dia.

Figura 79 - Uso diário de redes sociais em minutos

Fonte: Statista
Mesmo fazendo parte da vida cotidiana, a mídia social em sua forma atual é quase tão tóxica quanto benéfica. As redes existentes enfrentam críticas sobre moderação tendenciosa, exploração de dados de usuários, algoritmos viciantes e ecossistemas hermeticamente isolados. Independentemente da opinião sobre moderação ou censura de conteúdo, é inegável e alarmante que corporações sociais como o Facebook, Twitter e Youtube tenham poder sobre os nossos dados pessoais e identidades online. Toda vez que alguém fornece informação ou publica algum conteúdo nessas plataformas centralizadas, esses dados não pertencem mais à pessoa. Existe uma falsa sensação de propriedade sobre os tweets, vídeos ou blogs, quando, na realidade, no momento em que se “publica”, o controle é abdicado e enviado para o servidor centralizado de alguma grande entidade.
É inquietante como a crescente preocupação em relação ao poder dessas organizações aumenta em congruência com a dependência de suas plataformas. Por isso, o mercado está pronto para uma opção alternativa, que não coloque a monetização corporativa em primeiro lugar, mas o usuário no centro dela.
Os modelos de monetização dessas plataformas são baseados em publicidade, utilizando os dados produzidos pelos usuários para fornecer uma probabilidade maior de cliques nos anúncios, além de usar os dados gerados por essa interação para otimizar esses anúncios de forma cíclica. Assim, quanto mais souberem sobre o usuário, melhor poderão veicular anúncios. O mais polêmico sobre esse modelo é o quão longe essas plataformas estão dispostas a ir para adquirir dados.
Cada plataforma é inerentemente incentivada a capturar e não compartilhar os dados sobre seus usuários com as outras plataformas. Se elas puderem veicular anúncios com maior probabilidade de cliques do que seus pares, elas poderão capturar uma parcela maior de dois recursos fixos (a renda disponível e o tempo do usuário). Essa concorrência leva a todos os tipos de comportamentos questionáveis.
Apesar do direito constitucional de liberdade de expressão, a censura ocorre nas plataformas sociais por serem tecnicamente um fórum privado de propriedade de uma entidade. Isso significa que o proprietário corporativo tem o direito de moderar o feed, remover conteúdo que não se encaixa em suas regras e, na pior das hipóteses, bloquear o acesso do usuário às suas contas. Isso quando combinado com algoritmos “caixa preta”, ou seja, não auditáveis, que determinam qual conteúdo os usuários recebem, e que estão sob controle de poucos indivíduos, desencadeia uma concentração de poder a nível sistêmico, influenciando até mesmo o resultado de eleições ao redor mundo.
Outro grande problema deriva dos modelos de receita baseados em publicidade, em que até um quarto das postagens pode ser de anúncios pagos. Nesse modelo, muitas vezes nenhuma receita é compartilhada com os criadores de conteúdo, que são forçados a fazer suas próprias postagens publicitárias para serem compensados ou, em alguns casos, receberem apenas um status social, como o "curtir" no Facebook ou o "Karma" no Reddit, que não possuem valor monetário. Nesse modelo, a grande maioria dos criadores está recebendo apenas uma pequena fatia da receita por seu conteúdo.
Por fim, outra dificuldade desse sistema é que, mesmo contemplando a natureza "imperfeita" da estrutura atual, existe uma dificuldade de coordenação para uma mudança. Mesmo que o indivíduo decida migrar para uma plataforma nova e melhor, ele terminará lá sozinho. Só faz sentido mudar quando outros estão mudando.

8.1 Reimaginando as redes sociais

Enquanto as empresas Web2 se concentram nas mídias sociais como um único produto, a Web3 será uma escolha, acontecendo em camadas tecnológicas fluídas. Ou seja, o formato Web3 se relaciona com um espectro de preferência de usuário, que varia de acordo com a forma como os dados são mantidos, podendo ser mais ou menos descentralizados.
A maior mudança nesse formato é entregar ao usuário seu gráfico social, seus dados e os recursos de monetização. A camada base é um gráfico social: mapeia perfis, seguidores e suas conexões. Em seguida, está a camada do aplicativo, na qual os usuários podem consumir conteúdo e interagir com seus gráficos sociais. Por meio de blockchains, não há uma única entidade controlando esses gráficos. Eles se tornam ativos do usuário em vez de produtos de propriedade de uma corporação.

Figura 80 - Tipos de gráficos sociais

No modelo Web2, os seguidores e as conexões estão isolados em cada aplicativo. O conceito da Web3, por outro lado, permite levar os seguidores de um aplicativo para qualquer outra plataforma. Imagine a simplicidade e o tempo economizado, caso fosse possível fazer com que todos os assinantes de um canal do YouTube seguissem instantaneamente uma página do Instagram da mesma marca. Essa é a vantagem de separar o gráfico social da camada do aplicativo: o gráfico permanece o mesmo enquanto a camada do aplicativo é flexível.
Essa ideia de possuir suas conexões torna-se mais significativa quando se discute moderação e censura. Donald Trump foi recentemente banido do Twitter e, depois, acabou fazendo seu próprio aplicativo de mídia social: o Truth Social. Com essa transição, ele perdeu seus seguidores e grande parte de sua audiência. Essa situação é muito pior para indivíduos que não são figuras políticas e correm o risco de perder seus meios de subsistência com as proibições de uma mídia social. Enquanto os modelos atuais otimizam o engajamento (tempo na plataforma e cliques), as futuras plataformas Web3 poderão oferecer flexibilidade de curadoria, sendo este um dos pontos-chave para o acúmulo de valor. Os vencedores serão aqueles que fornecerem a experiência mais desejável aos usuários.
A peça final do quebra-cabeça da mídia social requer a resolução dos algoritmos. Os aplicativos populares das mídias atuais impedem que seus algoritmos vazem para o domínio público a todo custo. Esses algoritmos são projetados para serem os mais viciantes possíveis e o usuário não tem nenhum controle sobre eles. Em um protocolo DeSoc, os indivíduos poderão criar algoritmos de código aberto ou utilizar várias camadas de aplicativos diferentes para customizar e controlar o conteúdo que recebem. Essa natureza open source abre margem para uma ampla concorrência e menor barreira de entrada de novas soluções. Assim, se existe um app muito utilizado e que muitos não gostam, basta copiá-lo e alterar os pontos que geram discordância. No fim, a comunidade decidirá qual é o melhor.

Figura 81 - Diferenças entre redes sociais centralizadas e descentralizadas

O fascínio de possuir seu gráfico social ainda não é o suficiente para convencer bilhões de usuários a abandonarem as plataformas existentes. Há outras lacunas a serem resolvidas para possibilitar essa migração. Mas é fato que, se resolvidas, existe uma chance de que a mídia social descentralizada (DeSoc) roube participação de mercado com um produto popular e que gere adoção. Os usuários existentes estão exigindo uma experiência melhor e o DeSoc pode atuar como um catalisador para a adoção de criptoativos.

Figura 82 - Trilema de Redes Sociais Descentralizadas

Embora pareça que a DeSoc é a possível resposta para todos os nossos problemas com a mídia social Web2, não existe uma solução perfeita. Todas apresentam seu próprio conjunto de complicações. Existem sempre compensações feitas em segurança, escalabilidade e experiência do usuário (UX) ao projetar um protocolo DeSoc. Uma analogia ao "Trilema das Blockchain" de Vitalik, em que nenhum protocolo consegue otimizar com sucesso todas as três características.

8.2 Segurança versus escalabilidade

A segurança indica duas coisas nesse trilema: a descentralização de um sistema e a forma com que ele executa as transações. Com mais validadores, as redes se tornam mais descentralizadas e seguras. No entanto, isso introduz a compensação entre segurança e escalabilidade. Quanto mais descentralizada e segura for uma rede, mais difícil e custosa será a propagação das informações por ela. Isso explica por que nenhum protocolo DeSoc pode ser, realmente, implementado na rede Ethereum, já que as taxas de gás são muito altas e a rede ficaria congestionada. Por enquanto, até que as tecnologias, como o Zk-rollups, se tornem baratas e utilizáveis, um protocolo DeSoc precisa operar em sidechains, parachains, em redes de segunda camada ou construir sua própria rede de primeira camada.

8.3 Segurança versus experiência do usuário

Quando se trata da experiência do usuário, alguns protocolos DeSoc podem decidir executar as próprias transações. Por exemplo, um usuário segue alguém e apenas assina uma mensagem para que isso aconteça. Ele não paga a taxa de gás e nem executa a transação. Ao invés disso, esse papel recai sobre o próprio protocolo, deixando a ação mais fluída. Isso introduz a compensação entre segurança e experiência do usuário (UX).
Ofuscar as taxas de gás é um grande passo à frente no UX. Imagine como seria horrível estar em uma plataforma em que se paga uma pequena fração toda vez que se queira postar um conteúdo novo. O UX ideal é aquele em que não é preciso lidar com pop-ups de metamask solicitando que o usuário assine contratos ou pague por transações. Isso tem o custo de conceder mais permissões e controle da carteira para contratos inteligentes, que correm o risco de serem hackeados. Ao mesmo tempo em que facilita a adoção em massa, vai contra a natureza descentralizada da Web3. A UX é o maior ponto de atrito na adoção dessa classe de ativos.

8.4 Experiência do usuário versus escalabilidade

As compensações entre UX e escalabilidade são complexas de se analisar. Abordamos, por exemplo, o caso da DESO (não confundir com o termo DeSoc), uma blockchain criada, especificamente, para aplicativos sociais. A DESO escalou para mais de 1,5 milhão de usuários, bem mais que o Lens, com pouco mais de 50 mil perfis. Porém, a DESO não compartilha no ecossistema do qual os usuários da Lens (Polygon) podem se beneficiar, como protocolos de jogos e DeFi. Imagine poder usar seu perfil como garantia dentro de um protocolo DeFi para fazer um empréstimo. Esse benefício de composição de valor agregado ainda não existe na DESO ou em protocolos DeSoc construídos em blockchains independentes.

8.5 Desenvolvimentos do setor

Como comentamos anteriormente, já existem inúmeras iniciativas sendo desenvolvidas nesse segmento. Entre elas, podemos destacar:
Lens Protocol: um protocolo de gráfico social construído na Polygon. O mais interessante é a sua abordagem em relação à moderação: ele deixa toda a moderação para a camada do aplicativo, onde o conteúdo é postado. Caso o usuário seja banido ou censurado em determinado aplicativo, ele pode simplesmente passar para outro que ofereça uma experiência melhor. No caso da transferência, o usuário consegue manter todos os seus seguidores como se nada tivesse acontecido.
Outro ponto interessante do projeto é como eles abordam a questão da experiência do usuário. Eles desenvolveram uma API, a qual permite que usuários façam transações sem pagar tarifas, aproximando a experiência de uma mídia social Web2. Esse custo é transmitido para a plataforma do layer do aplicativo, como o Lenster ou o LensFrens.
Embora a desvantagem de usar a API sem gás seja que os usuários dependem dessa retransmissão para propagar por toda a rede o seu post, por exemplo, essa compensação vale a pena, já que as postagens de mídia social não exigem o mesmo nível de segurança e velocidade das transações financeiras. Essa flexibilidade é definida no Lens por um período de até uma hora para se postar oficialmente as transações on-chain, evitando, dessa forma, períodos de altas taxas de gás.
DESO: é uma blockchain de primeira camada desenvolvida para se tornar uma rede social escalável, com até 1 bilhão de usuários. Já existem alguns apps sendo desenvolvidos nela que simulam a usabilidade do Instagram e Amazon, além de algumas DAOs em seu ecossistema, como a DAODAO. Até o momento, a rede conta com 1,62 milhões de endereços ativos, dos quais 579 mil são criadores.
Sismo: qualquer endereço na Web3 é pseudoanônimo, já que, por padrão, não há uma identidade associada. Essa característica dificulta a sociabilidade, pois, por não carregar nenhum identificador, não se conectará a outros humanos em escala. Para obter uma identidade social na Web3, são necessários identificadores (atestados verificáveis). Em outras palavras, precisamos de aplicativos que forneçam identificadores para as nossas contas.
É exatamente esse o foco do Sismo, um layer de gerenciamento de identidade Web3, com UX amigável construído a partir da tecnologia de atestados criptográficos baseados em zero-knowledge proofs. Esse método permite provar que uma afirmação é verdadeira sem que nenhuma informação adicional seja compartilhada, garantindo, assim, a privacidade.
A Sismo permite que o usuário gerencie os conglomerados de metadados gerados por seus endereços web3 e perfis sociais Web2 via sua plataforma, além de poder revelar seletivamente as informações que deseja compartilhar, por meio de badges NFTs. Isso permite uma liberdade para criar personas online específicas. Pode-se criar uma persona para discussões políticas e outra para fins profissionais, por exemplo.
Podemos imaginar a Sismo como um middleware de identidade gamificado e customizável, já que é possível criar atestados próprios como "seguido por Vitalik Buterin" ou "comprou ETH no ICO". Acreditamos que, no futuro, muitos provedores de atestado como este competirão pelos identificadores mais confiáveis ou populares. Alguns terão grande adoção e outros ficarão na moda apenas por um tempo (de forma semelhante aos filtros do TikTok e Instagram).

8.6 Futuro e tendências

A mídia social da Web3 não será centrada no aplicativo, mas na identidade. Vemos a tecnologia (identificadores/NFTs/Soulbound) como a forma de adicionar um contexto para tornar a Web3 social, possibilitando um gerenciamento de identidade amigável que preserva a privacidade dos usuários e permite que eles agreguem reputação e possuam seu gráfico social. Para isso, no entanto, é necessário que a possibilidade de uma adoção desse formato avance, principalmente em relação à experiência do usuário. O social não vai parar de evoluir.
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
as nossas vidas.
Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro