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6. GameFi e a nova forma de rentabilização dos jogos

A possibilidade de ser remunerado por jogar games e a chance de poder vender os ativos recebidos pelo progresso em um jogo, conseguindo rentabilizar os gastos de tempo e energia: é esse tipo de experiência que os jogos criados na blockchain estão gerando aos jogadores. E é essa a narrativa que vem atraindo investidores e desenvolvedores que veem nisso o futuro dos jogos. Essa prática, chamada de GameFi, palavra derivada da união de jogos com finanças descentralizadas (DeFi), descreve a integração das tecnologias criptográficas à indústria de jogos, impactando desde a concepção dos ecossistemas até o modelo de monetização e distribuição do setor.
Mas, antes de nos aprofundarmos na sinergia que existe entre a tecnologia criptográfica e a indústria de jogos, é importante contextualizar melhor esse mercado. Falando de proporções, a indústria de jogos é maior que a indústria de cinema (US $76.7 bi) e música (US $67,89 bi) juntas, chegando a US$ 196,8 bilhões em 2022.

Figura 59 - Receita estimada mundial por categoria em 2020

Fonte: Statista
A indústria de jogos apresenta um crescimento médio de 4,7% ao ano, sendo projetado que, até 2025, alcance uma capitalização de US $225 bilhões.

Figura 60 - Receita estimada mundial do mercado de games

Fonte: Newzoo
O número de jogadores, segundo a Newzoo, a maior casa de pesquisa de games do mundo, teve um crescimento próximo de 4,6%, passando para 3,2 bilhões em 2022. Para 2025, estima-se que devam existir 3,5 bilhões de players no mundo. Ou seja, isso quer dizer que duas a cada cinco pessoas jogam algum tipo de game, seja de forma casual ou hardcore.

Figura 61 - Previsão de crescimento do número de jogadores

Fonte: Newzoo
Atualmente, há várias formas de jogar videogame. Os usuários podem jogar por consoles tradicionais, como Playstation, Xbox ou Nintendo; por meio de celulares, no modo mobile; e no computador, seja por jogos no browser ou por games baixados. Entre essas categorias, um grande destaque é a mobile que, em 2022, já representava cerca de 53% (US$ 103,5 bilhões) de todo o faturamento da indústria. Isso devido, principalmente, à grande taxa de penetração do uso de smartphones.

Figura 62 - Distribuição da receita do mercado de games em 2022

Fonte: Newzoo

6.1 Formas de monetização

Após termos um panorama geral do setor, é importante esclarecermos os modelos de monetização dessa indústria. Esse processo foi evoluindo ao longo dos anos, com o desenvolvimento da indústria de jogos.

Quadro 4 - Evolução do modelo de negócios dos video-games

Fonte: viden.vc
Atualmente, dentro da estrutura tradicional de monetização do setor de games, temos três formas principais de obtenção:
Buy-to-Play (B2P): modelo tradicional de vendas consolidado por consoles, no qual é necessário comprar jogos avulsos para jogar. Nesse modelo, o consumidor paga apenas uma vez para ter acesso ao produto.
Pay-to-Play (P2P): são jogos com pagamento mensal. Caso o usuário deixe de efetuar o pagamento, seu acesso é revogado. Entre os exemplos estão jogos como World of Warcraft e Final Fantasy XIV, além das assinaturas de serviços como Game Pass, do Xbox, e a PSN, do PlayStation.
Free-to-Play (F2P): nesse modelo não se paga nada para começar a jogar. Ele tem dominado o mercado de games mobile e representa cerca de 54% do faturamento geral, com US$ 106,4 bilhões. A mesma proporção acontece entre o número de jogadores: cerca de 83% deles estão nas plataformas mobile. Para ficar mais claro o faturamento dessa categoria, vejamos o gráfico a seguir:

Figura 63 - Faturamento de mercado mundial de jogos Free-to-play (F2P) entre 2018 e 2023

Fonte: Newzoo
A estratégia por trás dos jogos free-to-play (F2P) é atrair a maior quantidade de jogadores que a princípio não tem intenção de gastar dinheiro com o jogo. A partir desse público, criam-se estratégias para gerar monetização. Atualmente, são três:
  1. 1.
    Propagandas: cada jogo possui mecânicas diferentes, mas normalmente funcionam com o jogador aceitando assistir propagandas em troca de tempo de jogo ou de alguma recompensa (moedas, itens etc.). Ou seja, cria-se um incentivo que motiva o usuário a assistir e/ou interagir com as propagandas;
  2. 2.
    Itens: os jogos criam itens especiais que podem ser comprados para trazer alguma vantagem para o jogador, deixando seu personagem mais forte ou disponibilizando novas habilidades. Ou seja, os jogadores que gastam dinheiro têm maiores chances de performar melhor do que os que não gastam com o jogo. Esse tipo de jogo F2P passou a ser conhecido como “Pay-to-Win”;
  3. 3.
    Skins: são itens cosméticos, ou seja, adereços que impactam apenas esteticamente os personagens ou itens possuídos por eles. Essa lógica de monetização apela para a relação emocional do jogador com seu personagem e a vontade de se diferenciar dos outros players enquanto jogam.

6.2 O surgimento do GameFi

Como observado nos capítulos anteriores, as tecnologias criptográficas, como o ledger descentralizado e tokens fungíveis e não fungíveis, permitem o surgimento de novos modelos de negócios. Estes adotaram o conceito de economia aberta e ofereceram benefícios financeiros aos jogadores que, por sua vez, passaram a agregar valor ao contribuir com o jogo. Esses modelos ainda são incipientes, mas vêm introduzindo novos conceitos de jogos e modelos de retenção, que ainda não são possíveis nos jogos tradicionais:
  1. 1.
    Play-to-Earn (P2E): no P2E, o conceito é dar aos jogadores a propriedade sobre os ativos do jogo e valorizar aqueles que jogam ativamente e contribuem com aquele espaço. Ao permitir que os jogadores participem da economia aberta, cria-se valor para os membros do ecossistema (jogadores e desenvolvedores), que acabam recebendo recompensas com ativos do jogo. Nesse modelo, o jogador precisa adquirir um ou mais NFTs para poder jogar. Após "pagar" por esse acesso, o usuário está apto a receber recompensas ao completar os objetivos do jogo. Essas recompensas podem ser quaisquer ativos, desde criptomoedas até recursos do jogo em formato de NFTs. Diferente dos modelos tradicionais, onde os ativos têm apenas valor dentro do jogo, no P2E os itens obtidos podem ser cotados em dólar e vendidos para outros players em troca de outras criptomoedas, bem como transformados em dinheiro fiduciário, posteriormente.

6.2.1 Estudo de caso: Axie Infinity e o surgimento das scholarships

Axie Infinity é o jogo de maior sucesso a usar NFTs. Sua primeira versão foi lançada pela Sky Mavis em 2018. Dentro do jogo, tanto axies (pets virtuais, parecidos com pokemóns) quanto lands (terreno virtual) são representados como NFTs, podendo ser negociados na Ronin, uma blockchain desenvolvida pela Sky Mavis especificamente para o jogo.

Figura 64 - Axie Infinity é considerado o maior GameFi já lançado

Fonte: Playtoearn
Axie Infinity foi influenciado pelo jogo Pokémon. Desse modo, mecânicas de batalhas, habilidades e estatísticas possuem influências do anime, que também se transformou em jogo. Dentro da primeira versão do game, que continua em estágio de desenvolvimento, a jogabilidade era realizada em dois modos de jogos principais: o Player-versus-Environment (PVE) e o Player-versus-Player (PVP). No PVE, os players jogam contra a máquina, ou seja, contra a própria inteligência artificial do jogo. No PVP, os jogadores duelam uns contra os outros. O jogo funciona em dispositivos Android e Apple, assim como em um aplicativo no Desktop, todos conectados ao mesmo servidor. Dessa forma, usuários são livres para jogar com uma mesma conta em qualquer dispositivo.
A economia do jogo é baseada em um sistema com duas criptomoedas: Axie Infinity Shard (AXS) e Smooth Love Potion (SLP). Entre outras utilidades, os tokens são usados para "breedar", ou seja, para reproduzir os NFTs Axies. A reprodução dos Axies é um aspecto vital do jogo, pois utiliza-se de uma mecânica genética para que os jogadores tenham acesso a novas habilidades e cartas dentro do jogo.
O jogo ganhou tração e foi adotado em larga escala, principalmente, pelos países do sudoeste asiático, em específico as Filipinas. As mecânicas P2E do Axie tornaram-se uma fonte de renda auxiliar para jogadores de diversas idades, que foram financeiramente impactados pela pandemia de Covid-19. Um documentário sobre o fenômeno foi lançado em maio de 2021.
Em 2022, houve um crescimento acentuado dos jogos Play-to-Earn e dos seus NFTs, em grande parte atribuído à hype gerada por Axie Infinity. Nesse período, houve um aumento expressivo tanto do preço do seu token nativo AXS (que saltou de US$ 0,43 para US$ 165,37) quanto do número de jogadores diários ativos (chegando a 2,7 milhões em novembro). Esse crescimento também levou o jogo ao topo em termos de receita de protocolos Web3, com US$ 1,35 bilhões acumulados até o momento (final de 2022) e US$ 4,25 bilhões em volume negociado.

Figura 65 - Receita total acumulada do Axie Infinity (Ethereum e Ronin)

Fonte: Ronin

​​Figura 66 - Ranking histórico de receita entre Dapps

Fonte: viden.vc
O sucesso da Axie Infinity ocorreu em grande parte devido aos incentivos que atraíram novos jogadores e investidores. Nesse sistema, investidores compartilham seus axies com scholars, pessoas sem recursos para comprar os próprios axies, mas que dispõem de tempo e vontade de jogar. Os lucros são divididos, posteriormente, entre investidor e jogador, criando uma nova classe de “emprego”, que passou a ser conhecida como “scholarship”. O sistema de scholarships tornou-se popular pois reduziu a barreira de entrada do jogo.
Ao mesmo tempo, investidores perceberam o potencial de retorno do jogo e foram criadas centenas de guildas (Yield Guild Games é a maior delas) que investiram amplamente em scholarships, marcando o momento em que instituições perceberam o real potencial do GameFi.
Para explorar um pouco esse fenômeno de forma simples, vamos definir alguns parâmetros:
  • Preço médio do SLP em US$ 0,10 (o token ficou acima desse valor entre abril e novembro de 2021);
  • O custo de um Axie é de US$ 110 em média;
  • Ganho diário de 150 SLPs;
  • Tempo diário de jogo de 3h.
Nos cálculos a seguir, para fins de simplificação, vamos considerar que os ativos não tiveram variação de valor. Seguindo as premissas acima, podemos comparar os ganhos de um jogador de Axie com o salário mínimo de alguns países:

Quadro 5 - Comparação do salário mínimo de países e do quanto um jogador de Axie recebia em 2021

Observações: ganho por hora de cada país baseado no salário mínimo e em uma jornada de 8h diárias.
Podemos observar que a remuneração obtida pelos jogadores foi muito relevante no período, considerando que seu esforço diário era de cerca de três horas diárias. Esse efeito, em países menos desenvolvidos e em meio à recessão de Covid-19, foi uma fonte de renda essencial para milhões de pessoas em todo o mundo.
É importante salientar, contudo, que os valores utilizados na projeção da tabela anterior a eram variáveis e completamente instáveis. Esses patamares duraram apenas alguns meses, enquanto havia um fluxo de novos jogadores e capital entrando no sistema. Ainda assim, ficam claros o alcance e o impacto causados pelo jogo no setor.
  1. 1.
    Free-to-Play-to-Earn (F2P2E): a diferença desse modelo para o P2E é que não existe um custo de entrada para o jogador. No game, o player cumpre objetivos e é recompensado com NFTs ou outros tipos de tokens, que podem ser comercializados no marketplace por outras criptomoedas ou transformados em dinheiro fiat. Jogos como Ember Sword e Illuvium seguem essa estratégia. Qualquer um que baixe o jogo e crie uma conta poderá jogar (embora possuir NFTs de equipamentos e itens acabe sendo necessário para uma melhor experiência do jogo).
  2. 2.
    Pay-to-Win (P2W): Essa mecânica de jogo possui a seguinte lógica: o player que mais gastar terá o maior retorno econômico. Ou seja, nesse formato, a habilidade do jogador fica em segundo plano. Assim como nos outros Blockchain Games, aqui o player também receberá uma compensação em tokens pelo dinheiro e tempo investido no jogo. Jogos como Mir4 e Ni no kuni são exemplos dessa mecânica.
  3. 3.
    Click-to-earn: Aqui, além do player precisar adquirir um ou mais NFTs para jogar, é necessário que faça várias transações com sua carteira ao cumprir os objetivos diários, o que faz com que gaste taxas de gás para aprovar as transações em sua wallet. Esse modelo é constituído por uma gamificação de tarefas simples de clique, as quais são necessárias dentro de um determinado intervalo de tempo e demandam atenção e habilidades mínimas do jogador, além de que não são projetadas para serem divertidas.
  4. 4.
    A atratividade do modelo se dá por meio da promessa de lucros rápidos, algo que rapidamente se torna insustentável à medida que o fluxo de novos jogadores diminui. Por esse motivo, o uso do modelo está diminuindo ao longo dos anos. Entre os que adotaram essa estratégia podemos citar Cryptoblades, Cryptocars e Bombcrypto.

6.3 O sistema play-and-earn

Axie Infinity foi o maior jogo P2E feito até agora, mas muitos outros surgiram e estão sendo desenvolvidos para um futuro próximo. Cada vez mais desenvolvedores são atraídos por esse modelo de economia aberta. Da mesma forma, essa indústria tem captado atenção de grandes fundos de investimentos, conforme será mostrado a seguir:
  • Mais de US$ 2,2 bilhões foram investidos em rodadas iniciais apenas no primeiro semestre de 2022. Entre os principais investidores estão grandes fundos de investimentos, como Animoca Brands, Shima Capital e FTX Ventures;
  • Inúmeros novos fundos foram anunciados em 2022. Entre os principais estão a a16z (US$ 4,5 bilhões e US$ 600 milhões), Binance (US$ 500 milhões), Immutable X (US$ 500 milhões) e Konvoy Ventures (US$ 150 milhões).

Figura 67 - Principais fundos relacionados a Blockchain, Games e NFTs em 2022

Fonte: Drakestar.
A cada novo jogo lançado, os desenvolvedores dos jogos GameFi vão aprendendo com os erros e os acertos, fazendo com que o setor como um todo evolua. Economicamente, um jogo com economia aberta é extremamente complexo, já que pode ser influenciado tanto pelos jogadores quanto por demandas específicas do mercado. Nesse cenário, o papel do desenvolvedor se assemelha muito à forma como os governos agem e reagem em sua economia, só que no lugar de leis e regulamentações surgem atualizações e patches lançados para a preservação econômica daquele ecossistema.
Muitas críticas foram feitas ao próprio conceito do termo “Play-2-Earn”, levando em consideração sua sustentabilidade, pois, fundamentalmente, o sistema funcionava como um sistema ponzi, dependendo da contínua entrada de novos jogadores. Assim, quando novos usuários paravam de entrar, a economia deixava de ser sustentável.
Para evitar esses problemas, o termo P2E deixou de ser usado e surgiu um novo modelo, buscando mostrar que o propósito dos desenvolvedores está no desenvolvimento de bons jogos. Para se diferenciar do modelo antigo, um novo termo foi criado, levando-se em conta que o “earn” deve ser apenas uma consequência do modelo e não o principal objetivo. Assim, surgiu o "Play-and-Earn", no qual ganhar pode ser uma consequência do jogo, mas não a principal. Um exemplo de jogo assim é o Guild of Guardians.
O consenso geral é de que ainda há muito a ser desenvolvido. Porém, uma vez que seja encontrada uma estrutura de tokenomics e um modelo de negócio sólido, a disrupção de toda a indústria de jogos será inevitável.

6.4 O caminho para o GameFi ainda é longo

A tecnologia criptográfica pode ser um meio de suporte da nova geração de jogos em que jogadores são livres para fazer o que quiserem com seus itens. Os NFTs oferecem propriedade real e permitem que os jogadores negociem seus ativos como bem entenderem e de maneira segura.
A possibilidade de integração entre jogos com outros dApps (aplicativos descentralizados) na blockchain, pode gerar inúmeras possibilidades interessantes aos players. Um exemplo de integração futura: utilizar um ativo em forma de NFT, como uma espada, em vários jogos diferentes, ou integrá-lo em dApps financeiros, que podem oferecer serviços aos jogadores, como empréstimos, por exemplo.
Embora esse novo modelo ofereça entretenimento e liberdade econômica aos jogadores, criar um balanceamento econômico é o principal desafio. Essa nova indústria ainda está engatinhando, mas suas vantagens e oportunidades são gigantes. Aos poucos, os gigantes dos jogos tradicionais vêm explorando possibilidades de se inserirem no modelo criptográfico. Empresas como a Eletronic Arts (EA) estão contratando desenvolvedores com experiência em NFTs. Desse modo, parece apenas uma questão de tempo até que as blockchains se tornem uma das principais infraestruturas para a construção de jogos.
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
as nossas vidas.
Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro