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5. A autenticação de tudo: os usos dos NFTs na sociedade

Os Tokens Não Fungíveis (NFTs) estão revolucionando o mercado de criptomoedas. NFTs simbolizam tokens com propriedades únicas e garantem a autenticidade de um certo ativo. A partir de 2021, esse tipo de ativo teve um crescimento maciço no mercado, sendo responsável pela entrada de milhares de novos investidores no setor de Web3. Um dos pontos principais é que, ao contrário de conceitos complicados, como DeFi e blockchain, o público em geral consegue entender, de forma relativamente intuitiva, o que os NFTs são e o que eles representam. A capacidade de atração desse tipo de ativo pode fazer com que a tecnologia dos tokens não fungíveis seja a responsável pelos usuários adotarem em massa o setor.
O volume de vendas de NFTs ganhou potência no início de 2021. Um dos pontos-chave nesse movimento foi o lançamento da coleção NBA Top Shot, da Dapper Lab. Eram NFTs representando “momentos” de destaque das melhores jogadas da NBA. Essa coleção, licenciada pela NBA, ganhou uma enorme adoção pelo público e marcou um dos primeiros sucessos de utilização de NFTs por organizações esportivas. A paixão pelo esporte levou os fãs a colecionarem esses “momentos” digitais dos seus atletas e times favoritos, originando uma economia ainda não explorada.
O movimento iniciado pelo NBA Top Shot deixou claro para outros artistas que a tecnologia NFT poderia ser uma nova porta de entrada para a rentabilização de sua arte. Christie's, uma das mais exclusivas casas de leilões, legitimou ainda mais o movimento artístico de NFT ao comercializar essa categoria. O mais conhecido exemplo foi a venda histórica da obra “Everydays - The First 5000 Days” do artista Beeple, por US$ 69,3 milhões em março de 2021.
O mercado de alta de 2020-2021 contribuiu para a tendência dos NFTs, que se tornaram uma expressão de suas crenças e sinalizaram status dos usuários criptonativos, principalmente, no Twitter, Discord e Reddit. Com as identidades virtuais ganhando mais importância, avatares digitais de coleções, como os Bored Ape Yacht Club e os CryptoPunks aumentaram rapidamente seu valor.
Os NFTs tornaram-se, coletivamente, uma maneira dos criadores rentabilizarem seu trabalho, sem depender de intermediários. Mas esse impacto não se limita ao setor artístico. Na indústria de games, já começam a surgir novos modelos, movidos por NFTs, que possibilitam aos jogadores uma nova relação com seus jogos.
Ainda estamos no início da revolução causada pelos NFTs, pois novos projetos surgem diariamente com novas ideias de utilização dessa tecnologia. Nesta seção, iremos nos aprofundar em fundamentos e também nas principais tendências desse setor.

5.1 O cenário dos NFTs

Um bem fungível é um item capaz de ser intercambiável com outro. O dinheiro é um bom exemplo, já que uma nota de R$ 50 vale o mesmo que outras notas de R$ 50 (ou o mesmo que cinco notas de R$ 10). Apesar de pequenas distinções técnicas, como os números de série e as datas de emissão, o papel-moeda é considerado fungível justamente por ser intercambiável e facilitar as transações do nosso cotidiano.
Por outro lado, veículos, artes e propriedades são exemplos de itens únicos e não intercambiáveis entre si. Imagine, por exemplo, duas casas vizinhas: elas podem estar no mesmo bairro, sendo vendidas pela mesma imobiliária e, até mesmo, possuírem um estilo construtivo idêntico. Ainda assim, elas são tecnicamente diferentes e não intercambiáveis. A decoração e a distribuição do interior do imóvel podem ser distintas. Mas, ao contrário das duas notas de R$ 50, as duas casas não compartilham do mesmo valor intrínseco e, portanto, não são mutuamente intercambiáveis. Desse modo, são não fungíveis.

Figura 30 - A diferença entre ativos fungíveis e não fungíveis

Fonte: viden.vc
Os itens fungíveis e não fungíveis são tradicionalmente itens tangíveis. Mas, com o passar do tempo, o nosso mundo está cada vez mais digitalizado e os itens intangíveis se tornam cada vez mais comuns. Primeiro, vieram os tokens intangíveis e fungíveis como o Bitcoin e o Ethereum. Eles são intangíveis porque não existem em uma forma física que possa ser sentida ou tocada. Com o posterior surgimento das plataformas de contratos inteligentes, a tecnologia necessária para a criação de NFTs possibilitou essa nova classe de ativos intangíveis.

5.2 Tokens fungíveis X tokens não fungíveis

Mas o que exatamente são tokens não fungíveis? O NFT é um token que possui um identificador único e parâmetros que permitem que você armazene nele certas informações. O identificador é o que o torna não fungível, enquanto as informações adicionais podem ser qualquer uma, como arquivos de texto, imagens, áudio e vídeos.

Figura 31 - Diferença entre tokens fungíveis e tokens não fungíveis

Fonte: viden.vc
Ao contrário dos tokens fungíveis, os NFTs são únicos e não intercambiáveis. Cada bitcoin, por exemplo, é uniforme e, praticamente, indistinguível do outro, permitindo que seja negociado livremente e sem qualquer dificuldade. Um NFT, por outro lado, tem seu identificador único, tornando cada peça diferente, mesmo quando superficialmente pareçam semelhantes.
Outro ponto é que os NFTs não são divisíveis em pedaços menores, o que os torna ilíquidos e mais difíceis de transacionar, já que precisam ser adquiridos em sua totalidade.
Dito isso, já existem projetos que permitem a fracionalização de NFTs, possibilitando aos usuários que obtenham porções menores, ao invés da peça inteira. Isso diminui a barreira de entrada para NFTs de alto preço e melhora a liquidez. Abordaremos esse assunto mais adiante.

5.3 Autenticidade e eficiência

A verificação da autenticidade é um ponto problemático comum quando tratamos de bens não fungíveis. Por exemplo, se alguém roubar o quadro da Mona Lisa e depois tentar vendê-lo, seria difícil verificar sua autenticidade sem trazer especialistas em arte. O ladrão poderia criar várias réplicas e vendê-las a diferentes compradores. Tratando-se de uma arte digital, é ainda mais simples de se criar cópias. Diferente do mundo real, pode ser impossível de se verificar qual é a original. É aí que entra a tecnologia NFT.
NFTs utilizam a tecnologia de contrato inteligente para armazenar e registrar informações na blockchain. Isso significa que sempre que um NFT é criado, ele se torna único e verificável. Essa tecnologia permite que todos verifiquem a autenticidade dos ativos digitais, o que simplifica o processo de estabelecimento da propriedade. Também permite a transferência de ativos de forma segura, eficiente e verificável.
Com NFTs, você pode certificar digitalmente que um ativo é autêntico e saber qual é a sua origem. Ou seja, é possível rastrear facilmente quando ele foi criado e posteriormente vendido, permitindo a qualquer um a possibilidade de seguir a trilha e acompanhar a lista de proprietários anteriores, além de ver o quanto cada comprador pagou pela peça.

Figura 32 - Checando a origem de um NFT

Fonte: OpenSea
NFTs mitigam problemas como fraude e plágio, um desafio que todos os bens não fungíveis enfrentam. Ao invés de contratar um especialista, podemos verificar a autenticidade de um NFT usando a blockchain.

5.4 NFTs e os intermediários

O principal efeito da utilização dos NFTs, além da autenticidade, é a eliminação de camadas de ineficiência dos sistemas. Artistas não precisam mais de galerias de arte para comercializar suas obras. As galerias físicas, além de serem extremamente seletivas, cobram taxas altíssimas que chegam a 50%, reduzindo o ganho dos artistas. Utilizando NTFs, o artista pode vender as suas obras diretamente para o comprador, por meio dos marketplaces, e ainda ganhar royalties sempre que sua obra seja transacionada no mercado secundário.
Mas não é apenas na arte que a tecnologia NFT remove intermediários. Você, por acaso, já se perguntou por que alguns documentos importantes ainda são registrados usando-se papel? Isso ocorre porque não havia como identificar se uma determinada cópia digital era única e confiável. Os NFTs podem mudar a forma como utilizamos testamentos, passaportes e títulos de propriedade. Imagine se governos e empresas começassem a usar NFTs para os seus documentos, processos e ativos. A tokenização deixaria os sistemas mais eficientes e confiáveis. Isso é só uma questão de tempo!

5.5 História dos NFTs

Embora só tenham aparecido nas manchetes dos jornais em 2021, os NFTs datam de 2012. Os primeiros NFTs podem ser rastreados até o projeto Colored Coins, que foi um experimento realizado na rede Bitcoin, para explorar o conceito de tokens não fungíveis. Esse projeto conquistou reconhecimento por se distinguir das transações regulares de bitcoin, porém haviam limitações técnicas devido ao script da rede exigir um consenso absoluto sobre o seu valor.
Andrew Steinwold usa um exemplo ilustrativo: “Três pessoas concordam que 100 colored coins representam 100 ações de uma determinada empresa. Se um desses participantes decidir que uma colored coin não tem mais o mesmo valor de uma ação, todo o sistema desmorona”. O projeto Colored Coins propagou um conceito e estabeleceu uma base para os NFTs. Projetos subsequentes, como a Counterparty, reafirmaram esse potencial de registrar ativos do mundo real em ledgers descentralizados. No entanto, ficou evidente que seria necessário uma blockchain mais versátil para extrair todo o potencial dos NFTs.
Com o lançamento da Ethereum, em julho de 2015, e a introdução de códigos programáveis por meio de contratos inteligentes, os desenvolvedores finalmente tiveram uma plataforma para desenvolver projetos NFTs. Um dos primeiros projetos na rede Ethereum foi a “Etheria”, uma coleção que retratava um mundo virtual em que jogadores possuíam terrenos, cultivavam recursos e poderiam construir estruturas. Etheria se tornou, assim, um item de colecionador por fazer parte da história da rede.

Figura 33 - Etheria representava um mundo virtual

Desde então, muitos projetos NFT foram desenvolvidos. Entre os lançamentos notáveis de 2017 estão CryptoPunks, Mooncats e CryptoKitties, amplamente conhecidos até os dias atuais. Foi nessa época que os padrões adequados de desenvolvimento começaram a tomar forma. Antes disso, o padrão utilizado por NFTs era o ERC-20, que é o mais utilizado em tokens fungíveis da rede Ethereum.

Figura 34 - Diferentes redes e o surgimento de distintos padrões de NFTs

Fonte: viden.vc
Em setembro de 2017, Dieter Shirley propôs o formato ERC-721 para padronizar tokens únicos. A proposta visava melhorar as interações precedentes, como a eficiência do gás. Além disso, permitia que o blockchain reconhecesse tokens não fungíveis. A partir dessa proposta é que o termo “NFT” foi cunhado. Essa nova padronização foi implementada pela primeira vez por CryptoKitties e, desde então, amplamente adotada pelos projetos NFTs subsequentes.

5.6 Quão grande é o setor de NFTs?

Por conta da constante inovação e das diversas formas de utilização dessa tecnologia, é complexo categorizar adequadamente o setor de NFTs. Focaremos apenas nos diferentes usos, deixando de lado a sua infraestrutura ou segmentos suplementares. Desse modo, podemos classificar oito categorias gerais:
  1. 1.
    Arte
  2. 2.
    Música
  3. 3.
    Colecionáveis
  4. 4.
    Games
  5. 5.
    Esportes
  6. 6.
    Metaverso
  7. 7.
    Utilidades
  8. 8.
    Instrumentos Financeiros
Os colecionáveis são, de longe, o maior segmento e têm uma representatividade de transações de valor elevado. Em 11 de agosto de 2022, seis das dez principais coleções de NFTs, em termos de volume, eram colecionáveis e totalizavam mais de US$ 8 bilhões em volume de vendas. No ranking, também aparece a categoria de games, com US$ 4 bilhões; arte, com US$ 1,2 bilhões; e esporte e metaverso, com US$ 1 bilhão cada.

Quadro 3 - Coleções de NFTs que mais venderam

Fonte: OpenSea
Uma maneira de estimar o tamanho do mercado de NFT é calcular o volume total de NFTs vendidos em marketplaces por cada blockchain. Em 11 de agosto de 2022, por exemplo, o volume total de vendas de NFT nas principais redes somou US$ 38,5 bilhões.

Figura 35 - Volume de vendas de NFTs por blockchains

Com um volume total de vendas de mais de US$ 29 bilhões, a rede Ethereum supera muito as outras correntes. Depois dela, a mais próxima é a Ronin, uma sidechain da Ethereum, do jogo Axie Infinity. No entanto, outros ecossistemas estão se desenvolvendo de forma rápida. Exemplos são as redes Polygon e a Solana.
Um dos fatores mais relevantes para a escolha da rede em qual se vai investir é o custo pago a cada transação. Dependendo do valor do NFT, a transação na rede Ethereum pode custar mais do que o próprio token negociado. Então existe uma tendência de se procurar redes com taxas mais baratas, dependendo da estratégia do colecionador. A rede Ethereum permanece, por enquanto, líder de mercado nesse espaço, pois abriga os primeiros projetos e tem a vantagem do pioneirismo, combinado com a sua cultura e comunidade. Isso pode mudar, futuramente, à medida que os NFTs comecem a ter uma adoção generalizada nas demais redes.

5.7 Um mergulho no ecossistema de NFTs

5.7.1 Obras de arte digitais ganham selo de autenticidade com tokens não fungíveis

O movimento dos NFTs de arte foi impulsionado por uma pequena comunidade de artistas digitais. À medida que essa cena ganhava atenção, outros artistas começaram a se voltar para o formato. Enquanto artistas digitais em ascensão enxergaram uma oportunidade de mostrar seus trabalhos, os artistas tradicionais e mais renomados foram, aos poucos, experimentando esse formato digital.
A tecnologia NFT, como vimos, permite que artistas e criadores gerem receita diretamente de seus fãs, sem necessitar de intermediários, melhorando bastante as suas margens de lucro. Essa tecnologia também revolucionou o meio digital por sua capacidade de proteger os direitos de propriedade. Antes, qualquer obra digital poderia facilmente ser reproduzida sem qualquer direito atribuído. Agora, os NFTs permitem que o artista coloque o seu selo de origem em qualquer mídia digital, provando a autenticidade da obra.
Em outras palavras, a tecnologia NFT contribui para a comprovação da origem, isto é, por meio dessa ferramenta é possível identificar quem eram os antigos proprietários, assim como a identidade do artista. Esse fator desempenha extrema importância na promoção do valor da obra. Existem inúmeros exemplos na indústria da arte tradicional em que as pinturas eram vendidas a preços baixos, mas, posteriormente, eram reavaliadas, uma vez que o artista original e o antigo proprietário fossem identificados.
Além da comprovação da origem, os NFTs podem fornecer uma conexão exclusiva com seus criadores. Um exemplo são as comunidades privadas para os detentores de suas obras. Outra vantagem da arte digital, além de sua portabilidade, está na gama de recursos que podem ser utilizados, permitindo mais criatividade. Os artistas podem, por exemplo, incorporar som e movimento ao seu trabalho. Toda essa variedade possibilita apelo para um público mais amplo, permitindo ao artista aumentar a sua base de fãs.
A arte existe em formato digital e é criada nativamente em plataformas digitais. De certa forma, os NFTs representam a combinação entre arte e tecnologia. Em vez de ser pintada ou impressa em papel, a arte assume formato de GIFs, JPEGs e muito mais. A tecnologia NFT traz inúmeras possibilidades para a indústria de pinturas, fotografia, design e animações. O espaço da arte digital apresenta uma gama imensa de aplicações, como:
  1. 1.
    Arte estática
  2. 2.
    GIFs/Vídeos
  3. 3.
    Fotografia
  4. 4.
    Arte generativa

5.7.1.1 Arte Estática

Como o nome sugere, a arte estática é um estilo de arte digital que não se move. É a forma mais tradicional, pois se adequa a diversos estilos. Aqui, vamos olhar para os dois artistas mais proeminentes de arte NFT estática: Beeple e Pak.
Beeple é o pseudônimo usado por Mike Winkelmann, um designer gráfico com 2,5 milhões de seguidores no Instagram. Suas obras já foram exibidas em coleções da Louis Vuitton e em diversos shows de celebridades pop como Justin Bieber, porém não tem representatividade em galerias de arte tradicional.
Até outubro de 2020, o artista vendia suas impressões digitais por US$ 100. Ele ficou conhecido pela obra "Everyday's - The First 5000 Days". O primeiro pixel da obra é de maio de 2007, quando ele começou a publicar uma nova obra em formato pixel todos os dias, tarefa que vem fazendo há 15 anos. Suas obras focam em temáticas sociais e tecnológicas.

Figura 36 - Obra "Everyday's - The First 5000 Days"

Fonte: https://onlineonly.christies.com/s/beeple-first-5000-days/beeple-b-1981-1/112924
A série “Everydays” é composta por cinco mil imagens individuais de suas obras antigas, agrupadas em uma única imagem. Ela foi o primeiro NFT vendido pela Christie's, uma das maiores casas de leilões do mundo. A obra foi arrematada por US$ 69 milhões em março de 2021, e fez com que Beeple se tornasse uma das figuras mais influentes do mercado.
Outra obra da coleção “The First Drop”, chamada “Crossroads”, arrecadou US$ 6,6 milhões em outubro de 2020 sem que o comprador soubesse como a arte ficaria, pois a forma final dependia do resultado das eleições presidenciais de 2020, nos EUA. Uma vez que se soube o resultado, a arte final foi apresentada: a imagem trazia Donald Trump deitado e derrotado, sem seu terno, e coberto de grafite na beira da estrada.

Figura 37 - Obra "Crossroads"

Fonte: https://www.niftygateway.com/itemdetail/primary/0x12f28e2106ce8fd8464885b80ea865e98b465149/1
Pak, por sua vez, é considerado uma das figuras mais enigmáticas da arte criptográfica. Sua coleção “The Fungible Collection” arrecadou quase US$ 10 milhões nos primeiros 15 minutos de vendas e US$ 16,8 milhões em 2 dias. Dentro dela, a obra mais bem avaliada foi “The Switch”, vendida por US$ 1,44 milhão. Switch é descrito como um NFT único, “um de um”, que demonstra a evolução da arte no mundo digital. Ele foi projetado para mudar de forma em algum momento do futuro, conhecido apenas por Pak. Essa transição foi determinada por meio dos smart contracts, na blockchain Ethereum.

Figura 38 - Obra "The Switch"

Fonte: https://www.niftygateway.com/itemdetail/primary/0xc7cc3e8c6b69dc272ccf64cbff4b7503cbf7c1c5/2
Outra peça da “The Fungible Collection” é “Pixel”. Ela é representada por um único pixel. O objetivo, segundo o autor, foi simbolizar a entrada de NFTs no mundo da arte tradicional. O NFT foi vendido por US$ 1,36 milhões, após uma acirrada guerra de lances que durou 90 minutos no Nifty Gateway. Ao contrário do Switch, que engloba uma coleção de formas tridimensionais brancas e cinzas em fundo preto, Pixel é apenas um quadrado cinza.

Figura 39 - A obra "Pixel"

Fonte: https://www.niftygateway.com/itemdetail/primary/0xc7cc3e8c6b69dc272ccf64cbff4b7503cbf7c1c5/1

5.7.1.2 GIFs e vídeos se tornam arte com os NFTs

Diferente das pinturas tradicionais ou das imagens digitais estáticas, GIFs e vídeos podem incorporar movimento e som, permitindo aos artistas criarem peças que integram uma experiência diferenciada. Um exemplo é o que faz XCOPY, artista criptolondrino, que explora temáticas como a morte e a distopia por meio de um visual distorcido.
Sua obra, Death Drip, foi uma das primeiras a serem colocadas no marketplace SuperRare, e vendida por 1 mil ETH em uma transação de mercado secundário, em 24 de março de 2021. Esta compra marca uma das maiores vendas de todos os tempos no SuperRare, sendo que o artista recebeu 100 ETH em forma de royalties (o que equivale a 10% do valor da revenda).

Figura 40 - A obra "Death Drip"

Outro artista famoso do meio é Mad Dog Jones. Oriundo de Ontário, seu nome é Michah Dowbak. Ele criou uma arte com conceito dinâmico, adaptativo e surreal através da combinação de música e imagens. Sua obra começa com fotografias ou desenhos de figuras urbanas, como edifícios e placas de rua, que ele transforma, mediante cores e ilustrações, em uma cena cyberpunk.
A obra “Replicator”, de 2021, foi vendida por US$ 4,1 milhões em um leilão organizado pela empresa Philips, em 23 de abril de 2021. Ela é única porque gera novos NFTs a cada 28 dias. Caso queira, o dono da obra NFT pode vender esses novos NFTs, que são gerados mensalmente, cada um com um valor próprio definido pelo mercado.

Figura 41 - A obra "Replicator"

Fonte: https://www.maddogjones.com/prints/1

5.7.1.3 Possibilidades de assegurar a autoria de fotografias

Os NFTs possibilitaram um novo mercado para as fotografias digitais. Nesse espaço, a propriedade da imagem costuma ser tradicionalmente discutível. Qualquer um na internet pode alegar ser o detentor da imagem original e os criadores recebem pouco ou nenhum crédito pelas fotografias que tiram. Com as fotografias se transformando em NFTs, sua autenticidade e a comprovação da propriedade podem ser verificadas e conferidas de forma indiscutível.
Um exemplo é o a fotógrafa Cath Simard. Em 2017, ela tirou a fotografia de uma estrada vazia no Havaí. Depois de postada em sua conta no Instagram, a imagem rapidamente se tornou viral e logo foi compartilhada por milhares de pessoas em diversas plataformas das mídias sociais. Apesar disso, a maior parte dos compartilhamentos não deram crédito à fotógrafa, que não recebeu nenhuma compensação monetária, mesmo após abrir processos de violação de direitos autorais.
Sem obter resultados, Cath decidiu mintar a foto como um NFT no SuperRare, de forma que seus direitos fossem entregues ao comprador. A imagem foi colocada em leilão e, logo, arrematada por um colecionador de NFT conhecido pelo nome "Gmoney". Ele pagou 100 ETH pela imagem. Com os direitos do NFT em mãos, Gmoney agora pode usar a fotografia para qualquer fim comercial sem a necessidade de atribuir direito à fotógrafa.

Figura 42 - Obra "#FreeHawaiiPhoto"

5.7.1.4 O surgimento da arte generativa

É compreensivo supor que apenas seres vivos são capazes de criar obras de arte, mas essa suposição está longe de ser verdade. Na arte generativa, as obras são criadas por sistemas autônomos que carecem de participação humana. Nesse caso, o papel do artista é desenvolver e projetar esse sistema, o qual, por sua vez, irá criar as peças. Normalmente, essas obras têm grande inspiração na arte moderna, envolvendo padrões geométricos. A seguir, vamos falar de alguns exemplos.
  • Art Blocks: é a principal plataforma em que o conteúdo generativo foi concentrado. Seu acervo é composto por uma grande variedade de obras e artistas. Algumas são imagens estáticas, outras são em modelos 3D. De qualquer modo, todos são unidos por um conceito semelhante: cada item é único e gerado por um algoritmo.
  • Ringers #879: criada pelo artista Dmitri Cherniak, a obra foi vendida no mercado secundário do OpenSea por 1.800 ETH, o que, na época, representava aproximadamente US$ 5,8 milhões. O comprador foi o Three Arrows Capital, um dos maiores fundos de investimentos do setor Web3, com sede em Cingapura.

Figura 43 - Obra "Ringers #879"

  • Fidenza #313: da coleção que consiste em 999 peças únicas, criadas por Tyler Hobbs, foi vendida por 1 mil ETH, o que totalizou pouco mais de US$ 3,3 milhões no momento da venda.

Figura 44 - Obra "Fidenza #313"

Fonte: https://opensea.io/assets/ethereum/0xa7d8d9ef8d8ce8992df33d8b8cf4aebabd5bd270/78000313
A tecnologia NFT é disruptiva e tem o potencial de transformar toda a indústria criativa. Os artistas detêm a possibilidade de desenvolver NFTs e, com isso, ganham mais opções para expor e monetizar o seu trabalho. Além disso, com uma nova plataforma e uma audiência mais ampla, os artistas possuem mais oportunidades para serem notados. Outra novidade é que os colecionadores também podem exibir suas coleções, sem a necessidade de terem espaços físicos.

5.7.2 Setor musical pode eliminar as gravadoras como intermediários

NFTs de música são a próxima barreira do entretenimento que o mercado cripto pretende derrubar. Essa modalidade de ativo digital vem aparecendo como a próxima grande tendência da Web3. Até o momento, mais de US$ 5 milhões em músicas tokenizadas foram vendidas nas principais plataformas voltadas para esse tipo de NFT. Os artistas são melhor remunerados, as comunidades são mais engajadas e também recebem parte do lucro gerado pelo som. Outra vantagem é que os NFTs proporcionam mais interação entre as partes.
Para quem nunca se aprofundou no mercado da música e nem nas formas de remuneração dos artistas, uma matéria do The Guardian jogou luz sobre informações relevantes do quanto o mercado atual está pendendo para os serviços de streamers (Spotify, Apple Music, YouTube, entre outros) e o quanto os NFTs mudam drasticamente essa narrativa.
Segundo a matéria publicada em 2021 pelo The Guardian, “o streaming de música no Reino Unido agora traz mais de £ 1 bilhão por ano em receita. Mas o fato é que os artistas podem receber apenas 13% da renda gerada, recebendo de £ 0,002 a £ 0,0038 por streaming no Spotify e cerca de £ 0,0059 na Apple Music”. Agora imagine que você está em uma banda que possui cinco integrantes e precisa dividir esse valor entre eles. As contas da divisão não batem.
Mesmo assim, Spotify e YouTube são as plataformas que mais pagam seus criadores. O primeiro pagou US$ 7 bilhões aos artistas ao longo de 2021, enquanto o segundo pagou US$ 15 bilhões. Mas, como aponta o relatório State of Crypto, da a16z, empresa de capital de risco, isso não esconde a disparidade impressionante entre os ativos comercializados na Web2 e aqueles vendidos na Web3. Em 2021, as plataformas da Web3 pagaram, em média, US$ 174 mil por criador, enquanto a Meta (do Facebook) pagou cerca de US$ 0,10 por usuário, o Spotify pagou US$ 636 por artista e o YouTube pagou US$ 2,47 por canal. Ou seja, mesmo com um mercado em estágio inicial, a Web3 aumentou de forma consistente a remuneração dos artistas.

Figura 45 - Receita recebida pelos criadores em 2021, por plataforma digital

Fonte: a16z
Mas não é apenas a má remuneração dos streamings aos artistas que irá permitir o crescimento dos NFTs de música. Há inúmeras razões para o crescimento do mercado. Em uma thread do mês de maio de 2022, @DegenDaVinci, conhecido por ser um investidor anjo de projetos Web3, apontou outras razões para que o mercado de músicas NFT exploda nos próximos meses/anos. São elas:
1) O modelo atual de streaming está quebrado e não proporciona ao artista uma remuneração adequada;
2) A propriedade de NFTs cria super fãs, que valorizam cada vez mais o artista;
3) Ter propriedade sobre ativos como uma música gera um impacto emocional no investidor, que busca criar formas de valorizar seu ativo;
4) Atualmente as músicas ainda estão subvalorizadas;
5) Consolida-se uma vitória do modelo freemium, como já havia ocorrido em outras áreas do entretenimento;
6) O NFT pode servir como um utilitário para o holder ir a shows e eventos do artista, criando, assim, uma experiência ao vivo com o músico;
7) Possibilita-se a divisão da receita entre música e investidor/fã;
8) Torna-se possível o surgimento de DAOs voltadas para o cenário musical, que poderiam acumular acervos digitais e gerar valor contínuo para seus apoiadores;
9) Reforça-se a tese de ciclo virtuoso que a Web3 vem entregando desde o início; e
10) Gera-se um relacionamento mais próximo entre o artista e seu fã.
Além disso, os artistas não são os únicos que podem ser remunerados nesse novo cenário. Os consumidores são parte ativa e também serão recompensados. Diante desse novo mercado, há dois modelos de tokenização das músicas: o NFT único e o NFT em série. Como está implícito, no primeiro tipo é feito um único mint do NFT. Já no NFT em série é possível criar um número fixo de NFTs por música, com a quantidade sendo determinada pelos artistas. Além disso, possuem dois tipos de modelos que podem agregar (ou não) valor ao NFT: 1) NFTs sem royalties, nos quais o indivíduo detentor da música ganha unicamente na valorização do ativo digital; e 2) NFTs com royalties, que acabam concedendo ao proprietário um percentual de royalties associados à música por um determinado período específico.
Decidido o modelo de NFT, a plataforma de mintagens de NFTs de músicas, que também servem como marketplaces especializados e curadorias desse mercado, deve ser escolhida. Isso significa que os artistas precisam ser aceitos pela plataforma primeiro, para somente depois poderem oferecer seus produtos por lá.
Os critérios para serem aceitos não são totalmente definidos e claros, mas, normalmente, são aceitos artistas que possuem um perfil mais ativo no ambiente da Web3. Após ser aceito, o artista pode mintar a música como um NFT, definir a quantidade de NFTs para distribuição, o preço e a forma da cobrança. As principais plataformas são:
Audius: Plataforma de streaming descentralizada que permite que os artistas distribuam suas músicas e sejam pagos diretamente por seus fãs.
Catalog: A Catalog minta músicas de 1 para 1. Isso significa que só existe uma cópia dessa música NFT. Até por isso, o preço mínimo costuma ser maior, estando na casa de 1 ETH. A Catalog vem sendo usada por artistas que desejam tokenizar músicas já existentes ou para que eles ofereçam uma versão bem limitada para um superfã.
Royal: Na Royal, por sua vez, as músicas são lançadas em grandes quantidades, em edições entre 500 a 1 mil NFTs da mesma música. Desse modo, o preço inicial costuma ficar em US$ 50. Os NFTs de música distribuídos pela Royal costumam ser chamados de ativos digitais limitados e possuem, em seu smart contract, percentuais de propriedade para cada um dos seus donos. Ou seja, ao deter um NFT de música desse tipo, você possui direito a uma parte dos lucros gerados por aquela canção. A plataforma Royal é usada por artistas que estão buscando oferecer a propriedade master de um registro já lançado para fãs e colecionadores. A Royal levantou uma rodada inicial de US$ 16 milhões liderada pelo Founders Fund and Paradigm e outra rodada de US$ 55 milhões capitaneada pela a16z, de Andreessen e Horowitz.
Sound: Com a Sound, as músicas são lançadas como edições. Essas edições costumam ser de 25 a 30 cópias no total. O valor unitário costuma ser de 0,1 ETH. A Sound vem sendo usada por artistas que querem oferecer um maior número de cópias de um mesmo NFT aos seus fãs. No momento, a maior parte das músicas NFTs são versões tokenizadas de canções já lançadas anteriormente. Como exemplo, podemos citar a música “So You Fell in Love”, da Felly, que já foi reproduzida 2,5 milhões de vezes no Spotify e agora está sendo comercializada por 2 ETH na Catalog. Mesmo assim, vem ganhando força projetos nativos da Web3. Entre os principais, estão:
Angelbaby: avatar que se apresenta em diversos eventos da Web3 e se denomina como o primeiro “metastar” do mundo.
Bored Brothers: projeto que envolve Kygo e Ryan Tedder e que usará os avatares do Bored Ape Yatch Club. No mês passado, eles lançaram “Drip”.
RŌHKI: artista anônimo da Web3 que acabou de lançar seu projeto.

Figura 46 - Capa do álbum da Röhki

Fonte: Röhki
Como já mencionado, os NFTs são uma oportunidade de garantir que os músicos sejam recompensados ​​de forma mais justa por seus esforços. Eles permitem que os artistas gerem mais receita e mais controle sobre suas músicas, além de apontar para uma mudança na relação entre artista e fã, que passa a se tornar muito mais colaborativa.
E o mercado está percebendo isso. Um gráfico da venda de músicas NFT chamado Top of the Blocks, publicado semanalmente desde março de 2021, oferece pistas sobre o que funcionou até agora. O gráfico é baseado no volume de vendas, e os valores necessários para entrar no top 10 subiram no ano passado, do equivalente a US$ 200 ou US$ 300 para US$ 2 mil ou US$ 3 mil. Embora a música eletrônica tenha dominado o gráfico nos primeiros dias, em junho de 2022 já havia NFTs de sucesso de hip-hop, rock e de música clássica.
É possível notar que os ativos digitais de música funcionam de forma semelhante ao stream da Bandcamp, no qual usuários podiam financiar um artista de forma direta, mas qualquer pessoa podia ouvir a música produzida. A diferença aqui é a blockchain: se um proprietário de NFT decidir vender sua NFT, o artista original também poderá receber uma parte das revendas, por meio de taxas de transação previamente programadas no smart contract.
Um exemplo de como até mesmo artistas consolidados estão entrando no mercado é a venda ocorrida no dia 17 de maio, quando a banda The Chainsmokers esgotou a mintagem dos NFTs da música “So Far So Good”, que ocorreu no Royal.io. O álbum em questão consistia em cinco mil NFTs que ofereciam 0,0002% de propriedade de royalties por token, além de acesso exclusivo ao canal do Discord da banda.
Artistas conhecidos, como Snoop Dogg, Nas e Diplo, bem como músicos em ascensão, como Daniel Allan, LATASHÁ e Haleek Maul, já lançaram suas NFTs de música. NFTs de música podem ser singles, EPs e/ou álbuns tokenizados. Da mesma forma que compramos um vinil físico, os NFTs de música podem ser uma versão digital que representa uma quantidade fixa de um trabalho criativo, prensado em blockchains de redes como Ethereum e Solana. Com NFTs de música, há uma quantidade limitada de cópias disponíveis para compra e um mercado global determina seu valor.

Figura 47 - As músicas mais ouvidas por semana (em maio de 2022)

O surgimento de plataformas de distribuição de músicas NFTs é só o primeiro passo de uma série de serviços que podem e devem surgir nos próximos meses/anos. Muitos deles irão impulsionar novas formas de negócios e comércios. A seguir, listamos algumas das possibilidades:
  • Fracionamento de playlists e de NFTs de músicas de artistas;
  • Infraestrutura de royalties em streamings da Web3;
  • Infraestrutura de royalties de streaming para proprietários de playlists;
  • NFTs que servem como trilha sonora de jogos, filmes ou metaversos;
  • Plataformas de aluguel de música NFT.
Isso pode tornar os NFTs de música ainda mais populares e mainstream, trazendo pessoas que hoje não estão no mundo cripto.
Atualmente, os NFTs de música são notoriamente de música eletrônica, mas isso está mudando aos poucos. Já é possível assistir a um ciclo do NFT de música, que vem se desenvolvendo da seguinte forma:
1) Os fãs apoiam seus artistas favoritos diretamente;
2) A comunidade em torno do artista, a utilidade e a propriedade do NFT proporcionam a criação de super fãs, o que, por sua vez, também ajuda os artistas a crescerem;
3) Conforme o artista vai crescendo, o valor dos NFTs passa a aumentar, bem como a procura por NFTs de novos artistas também cresce;
4) Por consequência, isso irá criar mais fãs, o que irá gerar mais recursos e a música dos artistas passará a ser melhor distribuída;
5) Após esses passos, o processo recomeça.

5.7.3 Colecionáveis se tornam ideias para o mercado NFT

Os colecionáveis são uma classe de ativos única. As pessoas colecionam todo tipo de coisas, como conchas, selos, cartões, imãs de geladeira etc. Colecionáveis surgem geralmente como hobbies. Na maioria das vezes, o valor dessas coleções é altamente especulativo. Por exemplo, os cards colecionáveis de Pokémon aumentaram de valor desde a febre no final dos anos 90. Uma caixa selada de cartas de Pokémon disparou em relação ao preço original de US$ 100 para US$ 50 mil no primeiro trimestre de 2021.
Colecionáveis são difíceis de definir como uma classe própria, porque, tecnicamente, qualquer artigo (incluindo arte, jogos etc.) pode se enquadrar nessa categoria. Porém, ela é a que mais se destaca e cresce no mercado de NFTs. Isso pode ser percebido por meio das coleções CryptoPunks e Bored Ape Yacht Club (BAYC).
Por muito tempo, a mais famosa coleção de NFTs foram os CryptoPunks. Criados em 2017 por John Watkinson e Matt Hall, que mais tarde fundaram a LarvaLabs, a coleção é composta de 10 mil Punks, que podiam ser reivindicados de forma gratuita (bastava pagar a taxa de gás da rede Ethereum). Os atributos de cada peça foram randomizados por meio de um gerador de acordo com diferentes traços, alguns mais raros que outros. Por exemplo, alguns eram alienígenas (apenas nove) e macacos (apenas 24), enquanto a maioria era de humanoides.

Figura 48 - Coleção "Os CryptoPunks"

Fonte: https://www.larvalabs.com/cryptopunks
Apesar de ser um dos primeiros projetos NFT na rede Ethereum, os Cryptopunks tiveram pouca atividade nos primeiros dias: menos de 30 deles foram reivindicados após o lançamento. Com o tempo, à medida que mais pessoas começaram a aprender sobre o projeto, especialmente com o artigo do Mashable, todos os CryptoPunks acabaram sendo mintados. A comunidade era pequena, mas bastante envolvida. Aos poucos, ser dono de um CryptoPunk se tornou uma espécie de símbolo de status. Segurar um CryptoPunk transmitia duas coisas: você era um NFT/Ethereum OG (Original Gangster) ou queria fazer parte da história da rede Ethereum.
O nível de atenção mudou quando celebridades, grandes figuras do mercado financeiro e personalidades de negócios começaram a adquiri-los como investimentos. Enquanto o principal fascínio dos CryptoPunks foi sua relevância histórica como um dos primeiros NFTs no Ethereum, com o tempo, muitos detentores começaram a mesclar sua identidade por meio dos NFTs da coleção. Isso ocorreu de tal forma que as pessoas começaram a reconhecer e respeitar os detentores dos CryptoPunks dentro da comunidade criptográfica. Os proprietários reconheceram o status social e começaram a mudar suas fotos de perfil nas redes sociais (por exemplo: Twitter, Discord etc.) para CryptoPunks. Com o tempo, a coleção conseguiu chamar a atenção até das maiores casas de leilão globais, como a Sotheby's e Christie's, que venderam CryptoPunks raros por milhões de dólares.

Figura 49 - Perfil do @punk6529

Fonte: https://twitter.com/punk6529
Por sua vez, os Bored Ape Yacht Club (BAYC) foram lançados pela YugaLabs em 30 de abril de 2021. Cada um dos 10 mil Apes é único e gerado programaticamente, usando 170 possíveis traços, incluindo fundos, roupas, brincos, olhos, pele, chapéu, boca, entre outros. Os traços e designs foram fortemente inspirados nos gêneros punk rock e Hip Hop dos anos 80 e 90.

Figura 50 - Coleção "BAYC"

Fonte: newyorker
Os proprietários do BAYC receberam utilidades já no lançamento: direitos comerciais totais em qualquer BAYC de propriedade e acesso a um “banheiro” privado, onde os titulares poderiam grafitar os pixels da parede. Desde então, vários proprietários desenvolveram projetos em torno do BAYC, como livros, quadrinhos, músicas, café, marcas de cerveja e restaurantes. A coleção alcançou diversos marcos desde seu lançamento, incluindo a doação de mais de US$ 850 mil para uma instituição de caridade de orangotangos.

Figura 51 - Restaurante Bored & Hungry

Entre as razões de seu sucesso, uma é a transparência e a constante comunicação feita pela equipe do projeto. Enquanto muitos criadores de projetos NFT param de oferecer atualizações ou desenvolvimento para seus projetos após a venda inicial, o BAYC criou um roadmap futuro e está constantemente buscando maneiras de surpreender os detentores dos NFTs. Essa coleção moldou a forma como os projetos NFT enxergam sua comunidade. A forte cultura da BAYC, que se desenvolveu organicamente devido à sua interação, boa química e abertura, atraiu muitos outros à comunidade. À medida que o desejo por ser membro desse seleto grupo crescia, sua relevância aumentava exponencialmente e hoje é uma coleção comparável aos CryptoPunks.
É da natureza humana coletar itens raros e interessantes. Os colecionáveis podem ser vistos como versões criptográficas de itens digitais de luxo. Este fenômeno é facilmente identificado no Twitter, por exemplo, onde muitos (anônimos ou não) preferem usar esses colecionáveis como sua foto de perfil. Isto é especialmente proeminente entre os detentores de CryptoPunks e BAYC.
Em um mundo cada vez mais digitalizado, nossa identidade virtual se torna cada vez mais importante. Como passamos cada vez mais tempo no mundo virtual, não é difícil imaginar que a nossa identidade digital possa se tornar o principal modo de autoapresentação e de identificação. A identidade digital permite criar qualquer imagem que você quiser, diferente da física, que enfrenta preconceitos como raça, cor da pele, religião e muito mais.
Da mesma forma que em itens de luxo ou no mundo da arte, o valor de cada colecionável é bastante subjetivo e geralmente apenas reconhecível dentro de um grupo fechado de pessoas. Eles são uma das ferramentas para encontrar pessoas que pensam como você. Existe um potencial enorme na criação de identidade que ressoa com indivíduos parecidos de todo o mundo. Este é o potencial do metaverso: criar um mundo paralelo que fornece propósito às nossas vidas.

5.7.4 Gamers passam a poder rentabilizar com ativos conquistados nos jogos

Os jogos sempre foram construídos em espaços isolados e controlados por uma entidade centralizada. Nessas bolhas, desenvolvedores e editores ditam as regras do sistema e controlam toda a economia e recursos dos jogos. Nessa dinâmica, jogadores não possuem de fato seus itens, os quais são de posse do jogo. Eles são impedidos de vendê-los no mercado em troca de moeda corrente. Quando desejam fazer isso, muitas vezes recorrem a plataformas inseguras que dependem de transações P2P (peer-to-peer). Ou seja, em última instância, a propriedade dos ativos digitais, fora dos NFTs, é de propriedade dos desenvolvedores.
Embora seja uma situação que a maioria dos jogadores considere comum, não é difícil entender o motivo de essa realidade trazer diversas limitações. Não apenas em relação à propriedade dos ativos, os jogos também estão limitados a interagir uns com os outros, fazendo com que itens valiosos fiquem "presos" a um jogo em particular.
Reconhecendo essas limitações, a tecnologia blockchain já está sendo implementada para construir jogos que permitam aos jogadores maior liberdade e autonomia em relação aos seus ativos. Uma grande parte desse processo envolve a criação de NFTs e tokens para representação desses itens digitais e moedas do jogo. Pode parecer pouco, mas as implicações são bastante significativas. Uma vez que todos os ativos são implantados como tokens e NFTs, eles ficam acessíveis em exchanges descentralizadas (DEXs) e marketplaces de NFTs. Em outras palavras, os jogadores podem negociar e trocar livremente esses itens para outras criptomoedas, como DAI, USDC, ETH e até mesmo em outros ativos de jogos. Isso resulta em uma economia totalmente nova, na qual os NFTs oferecem propriedade real e permitem que os jogadores negociem seus ativos como bem entenderem de maneira segura. Abordaremos esse tema de forma detalhada em um capítulo à parte.

5.7.5 NFTs podem alterar os esportes

Com milhões de fãs em todo o mundo, o esporte é um fenômeno que agrega pessoas de diferentes culturas desde a antiguidade. Por meio dele, torcedores de diversos contextos se reúnem para assistir seus times e jogadores favoritos. Da mesma maneira que na arte e na música, os NFTs introduzem uma nova forma de relacionamento entre equipes esportivas, atletas e seus fãs, possibilitando à torcida um novo jeito de mostrar apoio ao seu time e jogadores preferidos. Os NFTs proporcionam, assim, o início de uma nova era dos colecionáveis esportivos e, em alguns casos, permite que os fãs tenham, inclusive, um papel nas tomadas de decisão do seu clube favorito.
A maioria dos NFTs esportivos funciona como cartas colecionáveis ou ativos de jogos, nos quais os usuários podem competir uns com os outros e até participar de eventos especiais. Algumas equipes esportivas também oferecem vantagens adicionais que são desbloqueadas pela posse de um NFT, como a oportunidade de conhecer seu jogador favorito pessoalmente e até influenciar em algumas decisões da equipe, como acabamos de mencionar.
Uma das primeiras coleções a desbravar esse setor foi a NBA Top Shot. Construída para os fãs de basquete, essa coleção possui uma plataforma que permite comprar e vender "momentos", ou seja, NFTs apresentando videoclipes licenciados de seus jogadores favoritos em ação. É uma espécie de modernização das cartas colecionáveis.

Figura 52 - Coleção "NBA Top Shot"

Fonte: NBA Top Shot
Esses NFTs são emitidos na blockchain Flow e os colecionadores podem transacionar seus cards, por meio do marketplace criado para a coleção, que já movimentou cerca de US$ 1,025 bilhão desde seu lançamento, em julho de 2020. Por sua vez, a Chiliz parte do princípio de que, embora a torcida seja um elemento extremamente relevante para qualquer esporte, raramente ela é envolvida na tomada de decisões para o futuro da equipe. A proposta da Chiliz é mudar isso, permitindo que detentores de NFTs, que são chamados de Fan Tokens, opinem em decisões, acessem grupos de apoiadores e participem de eventos exclusivos.

Figura 53 - Chiliz exchange

Fonte: Chiliz.com
Os NFTs esportivos têm potencial de atrair entusiastas do esporte para o espaço criptográfico. Tanto as equipes esportivas quanto seus fãs têm muito a ganhar com a gamificação e o engajamento de sua comunidade, utilizando NFTs. A partir dessa tecnologia, abre-se espaço para uma nova economia e fonte de receita para as equipes e atletas.

5.7.6 No metaverso, NFTs são uma das moedas de troca

De forma simples, o metaverso pode ser entendido como um espaço virtual compartilhado, que se assemelha à nossa experiência do mundo físico. Nesse contexto, os usuários podem comprar ativos virtuais, como terrenos e veículos, encontrar amigos, participar de eventos, tecer relações profissionais e muito mais. Dadas as limitações atuais da tecnologia, o potencial total do conceito por hora é desconhecido, mas, ainda assim, já tivemos inúmeras experiências ao longo dos anos.
Existe, porém, uma diferença abissal entre as experiências de metaverso já existentes e o conceito implementando de tecnologia blockchain: o nível de descentralização. Caso o desenvolvedor de um sistema centralizado decida cessar as operações, todos os jogadores perderão suas contas, juntamente com qualquer progresso e bens preciosos no mundo virtual. O emprego da tecnologia blockchain e NFT permite que usuários tenham acesso a ativos imutáveis, registrados na blockchain, garantindo a propriedade real desses ativos. Por meio dessa tecnologia, é atribuída uma escassez real a terrenos ou moedas virtuais. Dessa forma, mesmo os desenvolvedores daquele universo não são capazes de “criar” mais terras ou itens. Um sistema descentralizado pode, ainda, distribuir a participação na governança, fornecendo aos usuários a possibilidade de votar em qualquer decisão que influencie aquele mundo.
Podemos ler mais sobre o assunto no capítulo dedicado exclusivamente ao metaverso.

5.7.7 Utilidade dos tokens não fungíveis

Muitas pessoas acreditam que os NFTs existem para gerar status em redes sociais ou para serem exibidos em galerias de arte virtuais. No entanto, certos NFTs também podem carregar formas de utilidade intrínseca, concedendo direitos especiais aos proprietários. Desde sistemas de nomenclatura descentralizados até verificação de presença, os NFTs podem ajudar a melhorar a experiência dos usuários ou garantir que os participantes sejam devidamente recompensados.
Imagine ter um nome descentralizado que melhore a legibilidade de endereços blockchain ao invés de strings, uma sequência de caracteres aleatórios, tornando-os mais fáceis de serem utilizados; ou NFTs de edição limitada que desbloqueiam vantagens especiais, como acesso exclusivo a grupos ou eventos privados... Existem infinitas possibilidades de utilidades para os NFTs!
A seguir, listamos alguns desses projetos que criam funções utilizando a tecnologia NFT.
Ethereum Name Service (ENS): é um sistema de nomenclatura descentralizada, construído dentro da blockchain Ethereum. O principal objetivo do ENS é mapear identificadores legíveis por máquina, como endereços e hashes, e torná-los nomes legíveis por humanos. É semelhante ao funcionamento dos nomes de domínio da Internet. Por exemplo, o endereço https://www.viden.vc é direcionado para o endereço IP do servidor onde a Viden Ventures é hospedada, enquanto viden.eth é direcionado ao endereço da carteira Ethereum.
Proof of Attendance Protocol (POAP): é uma aplicação que possibilita o registro de participação em eventos, funcionando de forma semelhante a um comprovante de presença em um show. Um bilhete físico pode ser perdido e a prova de presença perdida junto com ele, mas com POAPs, um participante receberá um comprovante digital representado como um NFT ao participar de determinado evento. Assim, os organizadores de eventos podem dar POAPs aos participantes, engajando seu público e servindo como uma ponte para intensificar o relacionamento entre os organizadores e sua comunidade. Cada POAP tem um design único que representa o evento. Os organizadores também podem atribuir outros recursos ao NFT, como salas de bate-papo privadas, sorteios e até airdrop de token para os portadores daquele POAP. Os POAPs podem funcionar, ainda, como acesso a votações ou pesquisas que definam eventos futuros daquela comunidade. Para o usuário, os POAPs funcionam como uma métrica que marca suas experiências de vida. Essa história pode ser compartilhada e permite que seus colecionadores se envolvam com outras pessoas de interesses semelhantes. O custo de mintagem de um POAP é baixo porque os NFTs POAP são emitidos no Blockchain xDai, uma side-chain da Ethereum, que tem baixo custo de transações. Ao serem criados, os organizadores do evento podem decidir o prazo em que os POAPs podem ser reivindicados e distribuídos por meio de um link ou QR code para qualquer pessoa que tenha participado dos eventos.

5.8 As futuras tendências dos NFTs

Observamos como os NFTs estão sendo utilizados para revolucionar mercados, seja por meio de sua utilidade (os domínios são um exemplo) ou pela geração de novas economias baseadas em fãs e um novo nível de interação entre o artista e sua comunidade, por meio de sistemas de votação e acessos exclusivos. Agora, vamos detalhar para onde essa tecnologia deve avançar e quais ecossistemas ela irá impactar.

5.8.1 Fracionalização de NFTs

Da mesma forma que em peças de arte tradicionais ou em imóveis, os preços dos NFTs podem ser elevados, impedindo que muitos ganhem exposição com as peças mais procuradas. Caso o detentor do NFT queira vendê-lo imediatamente, será necessário procurar compradores com capital suficiente ou reduzir o preço significativamente para diminuir a barreira de entrada. Essa característica torna os NFTs ilíquidos, já que não se pode trocá-los facilmente por dinheiro ou outros ativos.

Figura 54 - The Doge NFT

Fonte: fractional.art
A menos que se trate de um colecionador profissional, também é um desafio avaliar o valor intrínseco dos NFTs. Claro que existem casos em que a raridade pode ser estabelecida de forma simples, mas também há muitos outros fatores não quantificáveis, como estética, prestígio social e significado histórico-cultural.
Por não existir uma referência de preço confiável, é difícil utilizar os NFTs como garantia para produtos financeiros mais complexos. Por exemplo, pode-se facilmente usar ETH como garantia para emprestar outros ativos como USDC, já que o ETH é negociado 24 horas por dia, sete dias por semana nos mercados globais. No entanto, como os NFTs são negociados em uma frequência menor, seus preços não são facilmente estabelecidos. Para que os NFTs possam se tornar um ativo gerador de garantia viável, primeiro deve-se criar uma forma de aferição de preços em tempo real e que seja altamente precisa.
  • Falta de liquidez: que ocasiona uma diferença grande entre o preço teórico e o preço real na hora da venda;
  • Falta de comparativo de valor no mercado: que os torna difícil de se avaliar;
  • Dificuldade de ser usado como colateral (garantia): o que diminui, portanto, sua eficiência como capital;
  • Necessidade de alto valor: para obter exposição a NFTs valorizados.
Esses desafios levaram a comunidade NFT a desenvolver soluções como a fracionalização dos ativos não fungíveis. Essa fracionalização visa resolver os problemas mencionados acima, tornando o NFT divisível e, portanto, mais negociável. Esse mecanismo permite que investidores com menos capital detenham uma fatia de um NFT de alto valor, que anteriormente estaria fora de seu alcance. As frações de NFT são consideradas fungíveis umas com as outras. Por serem assim, os usuários podem negociar esses tokens NFT fracionados por meio de trocas descentralizadas, semelhante à forma como os tokens fungíveis são negociados. Da mesma maneira que Fundos Imobiliários (FII) permitem o acesso de investidores menores à diversificação em imóveis, os NFTs fracionados também permitem que investidores possuam um pedaço de NFTs valiosos.

Figura 55 - Esquema da fracionalização

Entre os protocolos que desenvolvem esse tipo de solução estão Niftex, NFTX, Fraction, NFT20, NFTfy (projeto brasileiro).
Antes do mecanismo de fracionamento, era difícil possuir NFTs de alto preço. A fracionalização visa democratizar o acesso e permitir que investidores de varejo tenham exposição a essa classe de ativos. A adoção de NFTs fracionados ainda é tímida, mas existe um imenso potencial para isso.
Os NFTs como classe de ativo ainda têm um longo caminho a percorrer para comprovar sua rentabilidade e sustentabilidade, mas com o crescimento da quantidade de investidores nativos-digitais e a busca por ativos alternativos, a fracionalização de NFTs pode se tornar um dos grandes mecanismos de investimento da próxima década.

5.8.2 A junção entre os NFTs e o DeFi

Como vimos, a transformação de NFTs por meio da fracionalização possibilita melhor acessibilidade, liquidez e, ironicamente, a fungibilidade dos NFTs. Isto demonstra como a utilidade do NFT pode ir além da associação limitada a obras de arte ou a itens colecionáveis.
A tecnologia NFT também tem um importante papel a desempenhar no mundo das finanças descentralizadas (DeFi). O conceito de fracionamento é uma influência direta de conceitos de DeFi aplicados à tecnologia NFT, porém essa relação não é uma via de mão única.
À medida que o desenvolvimento do DeFi foi acontecendo, vários projetos começaram a explorar a combinação de NFTs com produtos DeFi, dando origem a uma nova classe de ativos denominados “NFTs Financeiras”. De forma simples, NFTs financeiras são quaisquer NFTs aplicados como instrumentos financeiros. A seguir, detalharemos o exemplo da Uniswap. Para entendermos de forma completa o protocolo Uniswap, será necessário compreender o conceito por trás das diferentes versões do protocolo, conhecidas como V2 e V3.
Uniswap V2: como observado no capítulo de DeFi, AMM permite a configuração de qualquer pool de liquidez entre tokens (ERC20 - ERC20), que são completamente fungíveis por natureza. Por exemplo, em um pool USDC/ETH, tanto o USCD quanto o ETH são igualmente distribuídos ao longo de uma curva de preços x*y=k, cobrindo valores de zero ao infinito. Isso significa que a maioria dos ativos da pool nunca é utilizada, a menos que seus respectivos preços oscilem para os extremos. Uma pool de stablecoins como a de DAI/USDC utiliza apenas cerca 0,5% de seu capital para swaps entre US$ 0,99 e US$ 1,01, que é a faixa de preço em que praticamente a totalidade das negociações acontecem. Esse fenômeno ocasiona uma série de problemas:
  • Ineficiência de capital: a maior parte da liquidez (ou cerca de 99,5%, como no exemplo DAI/USDC acima) fornecida por LPs fica inutilizada;
  • Defasagem de preço: como os fundos estão espalhados por todos os preços, os usuários podem ter que pagar preços mais altos ao comprar tokens devido à falta de liquidez em uma faixa específica;
  • Ganhos de taxas mais baixos: os Provedores de Liquidez (LPs) só ganham taxas em uma pequena parte do capital que fornecem, o que pode ser insuficiente para compensar o risco de Perda Impermanente (IL) que assumem.
Uniswap V3: a nova versão, com novos recursos, foi lançada em maio de 2021. Entre esses recursos está a introdução de pools de liquidez não fungíveis. Essa mudança é fundamental para resolver as falhas da Uniswap V2 e serve como um exemplo interessante do papel que os NFTs podem desempenhar, uma função central dos produtos DeFi. Ao contrário da Uniswap V2, os LPs na V3 podem concentrar sua liquidez dentro de faixas de preço personalizadas. Nessa versão, em vez da liquidez ser espalhada por todos os preços em uma pool de ETH/USDC, pode-se optar por alocar o capital especificamente na faixa de preço entre US$ 250 e US$ 12 mil. Nesse caso, essencialmente, foi criada uma pool de liquidez própria cobrindo apenas a faixa entre US$ 250 e US$ 12 mil. O coletivo de todas as posições de liquidez (LPs) formará a pool geral.

Figura 56 - A liquidez entre as faixas de preço da Uniswap versão 3

Fonte: viden.vc
No caso da Uniswap V2, a participação na pool ETH/USDC seria representada por tokens Uniswap-ETHUSDC-LP fungíveis, mas esse não é o caso do Uniswap V3. Na nova versão, além da variável "quantidade", precisamos levar em consideração uma dimensão da "concentração de liquidez". Por exemplo, dois LPs podem ter adicionado US$ 100 ao pool ETH/USDC, mas a escolha de alocação de liquidez em termos de faixa de preço pode ser muito diferente. Nesse sentido, essas posições de liquidez não são intercambiáveis e, portanto, não são fungíveis. É aqui que o conceito de NFTs entra em jogo, já que os tokens ERC-721 são mais adequados para representar as posições exclusivas de ambos os LPs. Dessa forma, a Uniswap V3 conseguiu implementar a tecnologia NFT no DeFi, de forma que:
  • A eficiência de capital é aprimorada: a V3 requer menos capital para gerar a mesma quantidade de taxas esperadas em comparação com a V2;
  • Menor defasagem de preços: como resultado da maior liquidez disponível nas faixas com maiores volumes de transação;
  • Ganhos de taxas mais altos: já que uma concentração maior dos fundos adicionados à pool é utilizada para gerar taxas de swap.
É claro que essa maior eficiência requer um usuário com mais conhecimento de mercado para identificar as melhores faixas de liquidez. A V3 tem uma curva de aprendizado muito mais íngreme que a V2, já que a escolha de alocação tem uma implicação muito maior sobre as taxas que serão recebidas, bem como o nível de risco ao qual estará exposto. Porém, esse instrumento financeiro otimizado desempenha um papel fundamental para se construir instrumentos DeFi cada vez mais sofisticados e sustentáveis. Outros protocolos que desenvolvem funcionalidades financeiras usando tecnologia NFT são: Solv Protocol, Charged Particles, Aavegotchi, Unvest e Revest.

5.8.3 Como o marketing está usando os NFTs

Em agosto do ano passado, a Visa, empresa global de processamento de pagamentos, anunciou que adquiriu o CryptoPunk #7610 por US$ 150 mil, compra que marcou a primeira incursão de uma grande empresa em NFTs. Imediatamente após o anúncio, a notícia se propagou exponencialmente em comunidades cripto, noticiários e sites de negócios. A compra se tornou uma extensa campanha de marketing que gerou muito mais valor de relações públicas do que o custo de aquisição do próprio ativo.
Com essa compra de NFT, a Visa ainda detém o ativo em sua carteira, cujo floor está em US$ 125 mil, mostrando que a aquisição de um NFT pode não apenas ser usada por indivíduos, mas também por empresas e outras instituições para construir sua marca. Desde então, existem duas estratégias que vêm sendo adotadas por empresas com uso da tecnologia NFT:
  1. 1.
    A abordagem do comprador: da mesma forma que a Visa, outras grandes marcas, como Budweiser, compram NFTs como forma de propagar sua marca dentro e fora da comunidade cripto, chamando atenção em mídias sociais e plataformas de notícia e consolidando essa nova estratégia de marketing. Mesmo marcas menores já utilizam esse recurso. Um exemplo é a marca de chá gelado AriZona, que utiliza ativamente o seu Bored Ape (BAYC) na divulgação de seus produtos.

Figura 57 - Publicidade da AriZona Iced Tea

Fonte: Twitter
Quando uma marca compra um NFT, ela se torna automaticamente uma embaixadora daquela comunidade. Da mesma forma, a coleção se torna um símbolo associado à empresa, já que é de interesse de ambos os lados o crescimento daquela comunidade. Assim, ao invés de se pagar milhões de dólares para assinar um contrato com Neymar, uma empresa pode considerar comprar um BAYC para se associar à imagem do atleta, que também possui um. A melhor parte dessa estratégia é que o NFT continua sendo um ativo com valor (mesmo que especulativo) no balanço, em vez de uma despesa direta de uma campanha de marketing.
  1. 1.
    A abordagem do criador: essa abordagem envolve empresas criando seus próprios NFTs, que podem ser utilizados de diversas maneiras. Gigantes como a Burberry, Louis Vuitton e Nike já implementaram esse método com grande sucesso. A Burberry, por exemplo, em colaboração com a Mythical Games, desenvolvedora do game Blankos Block Party, lançou um personagem em NFT chamado “Sharky B”. Ele pode ser comprado no marketplace do jogo. Segundo a empresa, os games e o mundo digital são uma forte área de interesse dos seus consumidores.

Figura 58 - Obra "Sharky B"

Fonte: scmp.com
Desse modo, NFTs são símbolos que podem demonstrar status e gerar influência social. Diversas marcas e profissionais de marketing já reconheceram essa tecnologia como instrumento para falar com o público. Empresas que tradicionalmente procuram celebridades e atletas agora consideram NFTs como uma alternativa viável. Além disso, cada NFT possui uma narrativa e mensagem que pode ser utilizada para um objetivo específico, como doações a instituições de caridade e ONGs, por exemplo.

5.8.4 Tokenização de ativos é foco do mercado imobiliário

Ativos do mundo real podem obter muito valor da tecnologia NFT. Imóveis, por exemplo, possuem todas as características necessárias para serem representados como tokens não fungíveis: todo imóvel é único, todo imóvel possui um proprietário e todo imóvel exige uma comprovação dessa propriedade. Assim, a tokenização de imóveis é o próximo passo lógico da aplicação da tecnologia NFT e pode gerar diversos benefícios para os envolvidos:
  1. 1.
    Cada imóvel pode ser fracionado para aumentar o acesso e a liquidez;
  2. 2.
    A partir da tokenização, a colaterização (garantia) é facilitada, aumentando a eficiência do capital;
  3. 3.
    A comprovação da propriedade é indiscutível, o que é uma vantagem em países com sistemas jurídicos frágeis;
  4. 4.
    Possibilita o investimento em propriedades, bairros e cidades de qualquer parte do mundo, sem fronteiras e sem burocracia.
A tokenização nada mais é do que a representação de um ativo tangível (nesse caso um imóvel) por um NFT, que, por sua vez, pode ser fracionado. Isso permite que seja possuído por múltiplos donos. Nesse processo, cada token representa uma prova de propriedade digital, que pode ser conectado a contratos inteligentes de diferentes formas:
Empréstimo: pode-se levar meses para se conseguir um contrato de financiamento. Para obter o contrato, é necessária muita documentação e uma boa pontuação de crédito, processo que pode ser tendencioso e injusto. Utilizando-se DeFi, podemos obter um empréstimo em segundos, desde que exista uma garantia (colateral). No caso do financiamento, o próprio imóvel seria a garantia. Nessa lógica, existiria um token que representaria aquele imóvel, com o qual seria possível conseguir um empréstimo usando Defi.
Investimentos Imobiliários: com a tokenização de imóveis será possível distribuir uma pequena quantidade de capital em qualquer propriedade do mundo. Pode-se investir em um imóvel específico ou em índices que representam bairros, cidades ou países. O token de propriedade permite a divisão em dois tipos, de acordo com sua função: um representando a propriedade e o outro representando o direito de ocupação. Os proprietários obtêm os benefícios do fluxo de caixa de aluguel e da valorização do preço do imóvel, enquanto o locatário mora na propriedade e paga o aluguel. Esse pagamento pode ser feito por smart contract e ser imediatamente distribuído para todos os detentores do token de propriedade. No eventual caso de inadimplência, o token de ocupação é apreendido e o ocupante pode ser despejado por ordem judicial. Da mesma forma, impostos e despesas são pagos pelos proprietários de forma programada. O mercado imobiliário global vale centenas de trilhões de dólares e os NFTs são a maneira mais eficaz de provar a propriedade, resolver disputas e aumentar o acesso de investidores e proprietários de imóveis em todo o mundo.

5.8.5 Tickets e ingressos para eventos

Ingressos de shows e passes de eventos são adequados para serem representados por NFTs, já que existe um número finito deles e o acesso ao evento exige comprovação. Essa tecnologia pode eliminar o problema de falsificações e facilitar a verificação de autenticidade e propriedade dos tickets. Outra vantagem é o fato de que bilhetes NFT também são negociáveis em mercados secundários, o que desbloqueia várias possibilidades:
  • As transações podem ocorrer em marketplaces que ofereçam segurança e garantias. Hoje existe um mercado extremamente ineficiente, em que ingressos são negociados diretamente em redes sociais, sem garantia para os compradores;
  • Preços definidos pelo mercado;
  • É possível recolher royalties para os organizadores/criadores do evento em cada revenda no mercado secundário;
  • O registro do histórico de cada ingresso on-chain permite que os criadores lancem vantagens futuras como passes, descontos e brindes para seus fãs;
  • Cada NFT também serve como um colecionável, que simboliza a conexão entre o portador e o artista, aproximando-o daquela comunidade;
Segundo estimativas, o mercado de ingressos digitais ultrapassa mais de US$ 30 bilhões e a tecnologia NFT pode ajudar a expandir ainda mais esse número.

5.8.6 NFTs não transferíveis: certificados e diplomas

E como fazemos quando não queremos que NFTs sejam transferíveis? Esse é um conceito chamado de "Soul-Bound Tokens" ou SBTs. Os SBTs têm características perfeitas para serem implementados como certificados ou diplomas, pois são impossíveis de serem negociados e garantem uma verificação de autenticidade.
Um exemplo prático são as universidades e cursos, que podem passar a emitir SBTs que seriam verificáveis em plataformas como o LinkedIn, atestando a autenticidade do diploma/certificado por parte do usuário. Da mesma forma, trabalhos e projetos concluídos, habilidades desenvolvidas, horas investidas em um determinado tipo de ação: tudo isso pode ser tokenizado para ser mostrado no portfólio, sendo verificável por qualquer pessoa. Isso possibilita a diminuição do número de fraudes de currículos, por exemplo.

5.8.7 A portabilidade de dados

Quais razões tornam a portabilidade de dados importante? O fato de que os usuários podem facilmente trocar de serviço, caso as plataformas comecem a cobrar muito, a inserir anúncios, mudar algoritmos, limitar seu tráfego ou maltratá-los de qualquer maneira. Essa característica é semelhante ao modo que a Web1 funcionava. Por exemplo, hospedando o site projog.com.br em um provedor de hospedagem na web, caso o host apresente algum comportamento insatisfatório, pode-se mover esses dados para outro host e alternar os registros DNS para que projog.com.br aponte para esse outro espaço. Essa mudança pode ser realizada sem causar problemas para os usuários.
A Web3 funciona como Web1, onde existirão serviços centralizados integrados, mas seu poder econômico e controle geral serão limitados devido à portabilidade de dados. É por isso que as taxas de serviços Web3 são extremamente baixas quando comparadas às de outros momentos. Marketplaces como o OpenSea cobram 2,5% nas transações, enquanto Facebook, Twitter e Instagram recebem 100% da receita, o YouTube 45% e as lojas de aplicativos da Apple e Google levam 30%. Taxas menores são extremamente atrativas para criadores. A utilização de NFTs, que atribuem a posse dos dados ao usuário, garantem uma melhora nas ineficiências do mercado.

5.8.8 Identidade digital, votação e documentações

Quando o assunto é verificar identidade, as falsificações são outro grande problema, que pode ser resolvido utilizando a tecnologia NFT. Só nos EUA, 15 milhões de cidadãos têm identidades roubadas todos os anos, sofrendo danos de mais de US$ 50 bilhões. Mas como os NFTs podem resolver esse problema?
  • Eles são únicos e não podem ser falsificados;
  • Podem facilmente ser verificados;
  • NFTs não transferíveis (SBTs) são atrelados a uma carteira específica;
  • NFTs podem ser revogados em caso de perda ou roubo de carteira.
Como a identidade é muito mais do que apenas uma identificação governamental, existirão inúmeras NFTs de identidade, que podem verificar os requisitos de acesso a certos arquivos ou garantir um sistema de verificação de votos. A simplicidade de um sistema de votação digital e transparente pode aumentar a participação de eleitores e garantir que não existam dúvidas sobre as contagens, já que todo processo seria auditável.
Esse mesmo tipo de tecnologia também pode ser implantado para outras documentações. Os sistemas existentes "proof-of-paper/pdf" são falsificáveis utilizando-se o Photoshop. Nessa categoria, inclui-se registros médicos (certificados de vacinação e prescrições de medicamentos) e, até mesmo, acordos verbais feitos por e-mail ou mensagens. A tecnologia NFT levará à tokenização em massa de ativos tangíveis e intangíveis off-chain, revolucionando diversos ecossistemas.
Em última instância, os NFTs podem trazer a autenticação ao mundo como um todo!
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
as nossas vidas.
Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro