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4. Stablecoin: as criptos estáveis

Historicamente, Bitcoin (BTC), Ether (ETH) e outras altcoins sempre foram consideravelmente voláteis. Embora isso ofereça muitas oportunidades para especulação, também traz algumas desvantagens. A volatilidade dificulta o uso dessas criptomoedas para pagamentos cotidianos e para a gestão de portfólios, já que era obrigatoriamente necessário converter as criptomoedas em moeda fiduciária. Por exemplo, um comerciante pode aceitar US$ 5 em BTC por um café, mas pode descobrir que o BTC vale 50% menos no dia seguinte. Isso dificulta o planejamento e a operação com criptomoedas.
Além disso, esses ativos não são atrelados a moedas Fiats, como dólar, euro, real, entre outras. Para resolver essas pendências, uma solução desenvolvida foi as stablecoins. Esse tipo específico de token é um criptoativo que possui o preço atrelado a um ativo com preço estável, seja uma moeda fiduciária ou metal precioso. Antes, para consolidar os lucros ou evitar a volatilidade, os investidores e traders de criptomoedas não tinham outra opção senão converter suas criptomoedas novamente em moeda fiduciária por meio de corretoras centralizadas. A criação das stablecoins forneceu uma solução simples para esses dois problemas. Hoje, você pode facilmente se proteger do mercado volátil das criptomoedas usando stablecoins como BUSD, USDT, DAI ou USDC, entre outras.
Devido à praticidade e à grande capitalização do mercado das stablecoins, os órgãos reguladores passaram a dar mais atenção a elas. Alguns governos estão criando suas próprias moedas digitais, com o objetivo de manter o controle sobre a moeda (saiba mais no capítulo 16). A lógica por trás é de que as stablecoins são projetadas para manter um preço fixo, que pode ser atrelado ao dólar, euro, iene, ouro ou petróleo, para citar alguns exemplos. Além disso, uma stablecoin permite que seu detentor consolide lucros, perdas e transfira valores a um preço estável em redes blockchains.
Atualmente, podemos falar que existem três tipos de stablecoin: 1) as que são lastreadas em moedas fiduciárias (fiat); 2) as que são colateralizadas a criptomoedas; e 3) as algorítmicas. Stablecoins atreladas a moedas fiduciárias, como o BUSD, USDC ou USDC, mantém um vínculo com as moedas fiduciárias tradicionais. Para manter o valor atrelado, são mantidas reservas, seja em dinheiro ou em investimentos de alta liquidez, que equivalem a cada stablecoin emitida.

Figura 28 - O fluxo das stablecoins

Fonte: viden.vc
As stablecoins colateralizadas por criptomoedas (como o DAI) oferecem novos tokens assegurados por outras criptomoedas. Por essas reservas serem voláteis, é necessária uma margem de segurança (sobrecolaterização) para prevenção em momentos de estresse do mercado. Já as stablecoins algorítmicas controlam o fornecimento sem a necessidade de nenhum tipo de reserva financeira. Essa categoria tem sido, nos últimos tempos, alvo de questionamentos após o colapso do ecossistema Terra Luna.

Figura 29 - Capitalização de mercado primário e secundário das principais stablecoins

Fonte: viden.vc

4.1 Mas como exatamente funcionam as stablecoins?

Para criar uma moeda que acompanhe o preço de outro ativo é necessário um mecanismo de atrelamento. Existem várias maneiras de fazer isso e a maioria depende de outro ativo atuando como um colateral, ou seja, um lastro. Alguns métodos provaram ser mais eficientes do que outros. Dito isso, é importante diferenciar cada um dos modelos de stablecoins:
  • Stablecoins centralizadas: uma stablecoin centralizada mantém em suas reservas arespectiva moeda, como USD ou Euro. Na categoria das stablecoins centralizadas, existe uma instituição por trás que garante que aquele token emitido é uma representação de uma unidade monetária de seu colateral. Os seus ativos colaterais são ativos do mundo real e essas instituições possuem a capacidade de queimar, emitir e bloquear fundos. Por exemplo, para cada USDC ou USDT mintado na blockchain, há um dólar americano (USD), ativos dolarizados de alta liquidez ou até mesmo ativos como papéis comerciais chineses colocados em reserva, mantido como um colateral (uma garantia). Desse modo, qualquer investidor pode transformar sua stablecoin em moeda fiduciária e vice-versa ou comprar no mercado secundário. O preço do token no mercado secundário não pode ser controlado, ele não é fixo e depende da oferta e demanda pelo mesmo, mas sua paridade se mantém naturalmente por conta de arbitradores. Quando uma stablecoin está sendo negociada abaixo de 1 dólar a arbitragem pode ser feita comprando a mesma no mercado secundário e resgatando por dólares diretamente com o agente emissor, e vice-versa. Apesar de seguirem esse modelo de colateralização em ativos reais, elas se diferem em alguns pontos-chave, como quais ativos colaterais existem em garantia, a transparência na prestação de contas de suas reservas e sua situação regulatória perante os governos. Fora sua capitalização de mercado, volume de negociações e ecossistemas compatíveis. Os principais exemplos são: USDT (Tether); USDC (Circle) e BUSD (Binance).
  • Stablecoins descentralizadas colaterizadas em ativos digitais: As duas stablecoins mais conhecidas dessa categoria são o DAI (MakerDAO) e a aUSD (Acala). No caso das colateralizadas em ativos digitais, sua principal diferença é que ao invés de usar real, dólar, euro ou outra moeda fiat como reserva, o que é dado como colateral são outras criptomoedas. Esse tipo de stablecoin usa contratos inteligentes para realizar processos de queima de tokens e de emissão de novos tokens, e como tudo está em smart contract, qualquer um pode auditar os contratos de forma independente. Entre as stablecoins, podemos falar que ao contrário do USDT (Tether), do BUSD (Binance) ou do USDC (Circle), o DAI é realmente descentralizado. Emitido pela MakerDAO, uma Organização Autônoma Descentralizada da rede Ethereum, lançada em 2017, o DAI fornece garantias aos usuários. Para compreender, usaremos um exemplo hipotético: caso você queira emitir US$ 1 mil em DAI (mercado primário), por exemplo, você precisa fornecer US$ 1,5 mil em criptomoedas aceitas pelo protocolo (como ETH), na cotação do momento, isso gera um colateral de 1,5 vezes. Feito isso, você recebe os US$ 1 mil em DAI e escolhe o que fazer. Para acessar novamente seu colateral, você precisaria devolver os US$ 1 mil em DAI. Mas há um porém: caso o valor da sua garantia tenha caído abaixo de um certo índice de garantia ou da quantia que você pegou emprestado, ela será liquidada .
  • Stablecoins descentralizadas algorítmicas: por sua vez, as stablecoins algorítmicas não possuem nenhuma forma de reserva de ativo. Algumas das stablecoins algorítmicas conhecidas são a UST (Terra), a USDD (TRON DAO) e a USDN (Neutrino). Desse modo, smart contracts e algoritmos irão gerenciar a quantidade de tokens que são emitidos, com uma atuação parecida a de um banco central ao observar a política monetária de um estado. Esse modelo acaba sendo raro pelo fato de que a sua implementação é mais complicada. Em geral, a stablecoin algorítmica diminui a quantidade de moedas emitidas quando seu preço cai abaixo do valor da moeda fiduciária, a qual foi atrelada. Isso é feito por meio da queima de tokens, da recompra de tokens (buy-backs) ou do bloqueio de moedas por meio de staking. Por sua vez, caso o preço esteja acima do valor da moeda fiduciária, mais tokens são colocados em circulação, de modo a reduzir o valor da stablecoin. As stablecoins algorítmicas estão passando por um difícil período no momento, após a queda da UST, da rede Terra, que perdeu sua força após sofrer um ataque especulativo. A Luna Foundation Guard usou suas reservas para tentar manter a paridade com o dólar fiat, mas não foi suficiente. O baque foi enorme. A Terra Luna possuía uma capitalização de mais de US$ 60 bilhões, que acabou perdendo todo o valor de mercado.
Diante dos tipos de stablecoins, como avaliar quais são as atribuições desse tipo de ativo? Conseguimos enumerar rapidamente que esses tokens com preço estável podem 1) ser utilizados como meio de pagamento, 2) serem usados como reserva de valor estável, que possuem os benefícios de serem baseadas em blockchain e 3) servem para que os investidores tenham uma forma de proteger seus portfólios da volatilidade do mercado,entrando e saindo de posições rapidamente, sem precisar tirar os recursos da blockchain.
Entretanto, há ao menos quatro pontos de atenção: A garantia de manutenção de seu lastro, o nível de centralização e a dependência de instituições emissoras, o processo de auditoria feito por elas e a pressão de órgãos reguladores.
Além disso, é importante mencionar que existe o mercado primário (emissão ou resgate de stablecoins pelo agente emissor), que impacta na capitalização de mercado, e o mercado secundário (livre negociação entre os usuários), o que impacta no valor negociado.
Dito isso, vamos pegar os principais casos de stablecoins que sofreram com a perda de paridade em 2022 e decifrá-los. Os motivos e as consequências não foram sempre os mesmos. Antes de entrar em cada caso em específico, precisamos diferenciar os conceitos de perda da paridade e colapso. Existem tokens que se distanciaram do valor de um dólar e conseguiram retomar a paridade após um tempo e tokens que simplesmente colapsaram e agora não valem centavos.

4.1.1 UST (Terra): Stablecoin algorítmica

O UST foi o acontecimento recente mais impactante, principalmente pela sua robustez. Foi um caso de colapso e que levou consigo todo o ecossistema da Terra junto. No momento, ele configurava o Top 10 em capitalização de mercado e estava em um crescimento constante. Era uma stablecoin algorítmica e seu lastro vinha majoritariamente de LUNA, a criptomoeda do ecossistema Terra, e em um segundo momento, também do BTC.
Como foi seu caso:
O mecanismo criado pelo ecossistema permitia que para emitir US$ 1 em UST, uma quantia equivalente a US$ 1 em LUNA fosse queimada, e vice-versa. O rápido crescimento do ecossistema se deu principalmente pelos altos rendimentos prometidos, na faixa de 19,5% a.a. em dólar. Esses rendimentos eram bancados pela Luna Foundation Guard por meio do Anchor Protocol. Essa atração de capital mercenário fez o token LUNA chegar a ser cotado em torno de US$ 120 mesmo em um período de baixa do mercado, pois quanto mais UST emitidos, mais tokens LUNA eram queimados, diminuindo a sua oferta circulante. O problema se deu no momento em que esse fluxo se inverteu e os investidores começaram a vendê-los ao mercado ou trocá-los por tokens LUNA. O pontapé inicial que levou essa inversão de fluxo, deu-se quando uma quantidade massiva de UST foi vendida no mercado secundário, em uma pool de liquidez de stablecoins do protocolo Curve. Isso propiciou uma “corrida aos bancos”, causando uma “espiral da morte”. Os impactos do colapso foram sentidos por uma quantidade imensa de agentes, incluindo fundos de investimentos, empresas de empréstimos, corretoras centralizadas, investidores varejo e todos aqueles que usaram tanto tokens LUNA quanto tokens UST como colateral para pegar empréstimos ou aceitarem emprestar em troca deles. A espiral da morte desencadeou uma onda de liquidações forçadas no momento em que a alavancagem estava bastante alta. Grandes players como a Three Arrows Capital, Celsius, Voyager Digital e BlockFi foram extremamente afetados e sofrem as consequências até hoje.

4.1.2 aUSD (Acala): Stablecoin supercolateralizada em outros criptoativos

A stablecoin aUSD virou assunto após serem mintados, erroneamente, bilhões de tokens sem lastro algum, fazendo seu valor de mercado despencar.
Como foi seu caso:
O que ocorreu foi um bug na pool de liquidez recém criada do par iBTC/aUSD do protocolo Honzon, que implicou em uma emissão em massa de novos tokens aUSD. Esse fato fez com que a quantia existente em colateral não correspondesse mais a todos os tokens emitidos, levando o seu preço a despencar. A tentativa de resolução do caso se deu por uma rápida resposta da equipe da Acala por meio de uma proposta do conselho técnico, com o objetivo de pausar as operações do protocolo, travando os tokens emitidos, em seguida de uma proposta de governança focada na queima inicial de parte deles. Atualmente, a Acala possui um conselho técnico contendo apenas cinco endereços, visto que seu modelo de "democracia plena” ainda está em processo de desenvolvimento. Apesar de certa centralização no conselho, nesse caso isso contribuiu para que ocorresse uma maior agilidade na tomada de decisão, evitando uma piora na situação, impedindo que os tokens mintados se espalhassem para outras parachains do ecossistema da Polkadot. Um ponto positivo de tudo isso foi a transparência que a equipe transmitiu durante o ocorrido. O bug ocorreu por conta de um erro no código de um dos contratos autônomos que gerenciava a pool de liquidez, no protocolo Honzon. Para conferir a linha do tempo dos acontecimentos, basta acessar esse link.

4.1.3 USDN (Waves) e USDD (TRON DAO): Stablecoins algorítmicas

Tanto a USDD quando a USDN são stablecoins algorítmicas, assim como a UST do ecossistema Terra. Essas stablecoins sofreram com a perda de paridade em maio e junho deste ano, respectivamente. Porém, diferentemente da UST, elas não entraram em uma “espiral da morte”. As quedas não foram tão violentas e elas conseguiram recuperar sua paridade após alguns esforços.
Como foram seus casos:
A lógica entre LUNA-UST é semelhante aos casos WAVES-USDN e TRON-USDD, o que as diferenciam são, essencialmente, a robustez dos ecossistemas (e as consequências causadas), os incentivos em rendimentos aos investidores e os ativos colateralizados como reserva, além do mecanismo algorítmico. Porém, podemos dizer que tanto a classificação delas quanto os motivos das perdas de paridades podem ser os mesmos.

4.1.4 USDT (Tether): Stablecoin colateralizada em ativos reais

A USDT é a primeira e maior stablecoin do mercado, com uma capitalização em torno de US$ 67 bilhões, ocupando a terceira colocação no ranking geral de criptos. Ela é emitida pela instituição Tether, portanto é centralizada e lastreada em ativos do mundo real.
Como foi seu caso:
A perda de paridade ao dólar do USDT ocorreu em maio, em um momento delicado do mercado, quando havia acabado de ocorrer o colapso da UST. O FUD em torno disso somado a falta de transparência de suas reservas (aqui vemos a importância de auditorias transparentes e com certa frequência), fez com que os investidores quisessem se desfazer rapidamente de suas stablecoins, levando o valor da USDT cair para cerca de US$ 0,92 em algumas exchanges. Porém, após o mercado perceber que não havia nada muito concreto e que as vendas eram em grande maioria pelo pânico dos investidores, seu preço logo recuperou a paridade no mercado secundário. Durante este período, o valor de mercado da USDT caiu cerca de US$ 16 bilhões. A queda se deu por causa do aumento dos resgates diretamente com a instituição emissora, Tether, que mesmo sob as suspeitas sobre o lastro da USDT honrou todos os saques solicitados. Casos como esses em que não há colapso e sim a perda de paridade, a qual é retomada tempos depois, abre uma margem para que seja praticada arbitragem. Ela pode ser feita tanto comprando no mercado secundário e resgatando por dólares diretamente com o emissor quanto comprando com “desconto” o ativo, com a convicção de que a perda da paridade não passa de rumores e a mesma será retomada em breve.
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
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Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro