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3. A revolução trazida pelas Finanças Descentralizadas (DeFi)

O DeFi vai revolucionar o mundo. Essa sigla é a abreviação de “decentralized finance”, o que traduzido literalmente para o português significa finanças descentralizadas. DeFi corresponde a uma infraestrutura financeira de produtos e serviços em blockchain, que ocorrem de maneira descentralizada. Essa forma de negociação é uma alternativa ao modelo das finanças centralizadas que conhecemos. No mercado tradicional, para duas pessoas negociarem, é necessário que uma instituição faça o papel de intermediária, seja ela um banco, uma corretora, o governo ou mesmo o cartório. Isso é necessário tanto para fazer uma simples transferência quanto para pedir ou fornecer um empréstimo e negociar uma ação. A imagem abaixo exemplifica isso:

Figura 8 - Finanças centralizadas

Fonte: viden.vces
Por sua vez, nas finanças descentralizadas (DeFi) não é necessário nenhum intermediário. Ou seja, no DeFi, o intermediário é sacado da equação e substituído por um contrato inteligente, o qual assim como os intermediários, têm a função de garantir que as partes envolvidas irão cumprir com o que foi acordado previamente. O contrato inteligente é um código aberto, tornando possível que todos tenham acesso ao que foi escrito nele. O processo é exemplificado na imagem abaixo:

Figura 9 - Finanças descentralizadas

Fonte: viden.vc
É importante apontar a necessidade de que os protocolos descentralizados que rodam contratos inteligentes tenham algum tipo de auditoria para confirmar que ele foi codificado e escrito corretamente. Isso permite averiguar a existência de bugs ou de possíveis falhas, que permitam explorações de um agente mal-intencionado, como um hacker. As DeFi possibilitam uma série de vantagens:
  • Menos custos das partes envolvidas. Isso ocorre porque elas não terão que arcar com os custos dos intermediários, como em spread, altas taxas de transação, salários de funcionários, aluguel de suas sedes, etc;
  • Mais escalabilidade das operações. Isso se dá porque do ponto de vista operacional, não faz diferença se dez, cem, mil ou um milhão de usuários estejam usando um protocolo DeFi. O que vai na contramão de uma corretora tradicional, na qual a quantidade de usuários impactam diretamente no aumento dos custos;
  • Maior segurança. Isso mitiga a possibilidade de erros humanos da instituição em questão, já que apenas será executado um código programado. Além disso, os usuários têm a liberdade para custodiar seus próprios ativos.
  • Maior transparência. Todos podem visualizar as transações feitas, diferentemente de um registro interno de uma instituição tradicional.
  • Maior liberdade aos usuários. Neste modelo, eles podem transacionar ativos sem restrição, para qualquer pessoa de qualquer lugar do mundo, sem depender de terceiros.
A Ethereum é a blockchain pioneira em DeFi e o principal ecossistema nos dias de hoje. Atualmente, grande parte do marketshare de DeFi depende da rede Ethereum.

Figura 10 - O mercado de DeFi no mundo

Fonte: a16z
Apesar de seu market share ter diminuído, isso se deu em decorrência ao grande crescimento do setor DeFi como um todo, que foi de praticamente zero a mais de US$ 100 bilhões em menos de dois anos. Se o setor fosse um banco, em 2022 seria o 31° maior banco do mundo.

Figura 11 - O crescimento do mercado de DeFi ao longo dos últimos anos

Fonte: a16z

Figura 12 - O Tamanho do DeFi comparado com os bancos dos EUA

Fonte: a16z
Quando falamos de finanças descentralizadas podemos considerar os principais subsetores: meios de pagamentos, corretoras descentralizadas (DEXes), plataformas de empréstimos (lendings e borrows), stablecoins e derivativos. Vamos entender um pouco melhor cada uma delas:

3.1 Soluções de pagamentos

Esse setor é composto por soluções de pagamentos (como o bitcoin, bitcoin cash, litecoin, XRP) e serve para pessoas físicas e empresas que querem pagar ou receber em cripto através do método peer-to-peer.
Diferentemente do que muitos pensam, o setor de finanças descentralizadas é muito maior que apenas isso. Com a criação da rede Ethereum e, posteriormente, de outras soluções, surgiu uma infraestrutura adequada para que aplicações à base de contratos inteligentes possam se desenvolver em cima dela e com isso funções muito mais complexas do que apenas meios de pagamento peer-to-peer começaram a surgir, como veremos a seguir.

3.2 Corretoras descentralizadas (DEX):

Antes da existência de DEXes, em um primeiro momento as únicas maneiras de se fazer um swap de criptoativos eram em uma corretora centralizada como a Binance, onde é necessário delegar a custódia de seus ativos e utilizar o sistema interno de negociação deles ou por meio de uma negociação direta peer-to-peer, em um modelo que depende da confiança na outra parte envolvida. Quando a relação é de confiança, é necessário que eu envie a minha parte e confie que o outro envie a dele. Isso não é bom, pois o usuário fica dependente da confiança no outro ou da delegação da custódia de seus ativos.
A custódia é um fator crucial em cripto e um dos propósitos de sua invenção. Historicamente, no mundo todo existem inúmeros casos de governos que travaram contas bancárias de seus cidadãos, sem levar em conta os grandes hacks que ocorreram em corretoras de criptomoedas centralizadas, como quando a Kucoin teve mais de US$ 280 milhões roubados em 2020.
Por conta disso, as DEXes conseguiram suprir uma grande demanda do mercado. Essas exchanges descentralizadas permitiram que os usuários mantivessem a custódia de seus ativos, podendo fazer transações sem precisar conhecer ou confiar na outra parte envolvida. Tudo isso assegurado por um contrato inteligente de código aberto.

Figura 13 - A Uniswap é um exemplo de corretora descentralizada

Fonte: Uniswap
A maior e mais disruptiva corretora descentralizada instalada inicialmente no ecossistema da Ethereum (depois ela se expandiu a outros ecossistemas) se chama Uniswap. Para um token ser listado nela, basta alguém estar provendo sua liquidez, o que abre uma infinidade de novas possibilidades de trocas. Isso ocorre porque nas corretoras centralizadas, para um token ser listado é necessário passar por vários processos internos de análise e decisão o que, muitas vezes, inviabiliza a negociação de projetos que estão começando ou que tem pouca capitalização de mercado. Abaixo, algumas diferenças entre as corretoras centralizadas e descentralizadas:

Figura 14 - Diferenças entre CEX e DEXes

Fonte: viden.vc
Com o grande sucesso da Uniswap, concorrentes começaram a surgir. Como seu código é aberto, bastou alguém copiá-lo e fazer o lançamento de uma cópia com outro nome e algumas alterações. Foi o que fez a Sushiswap, por exemplo. A diferença é que apesar de ser uma cópia, para atrair market share de sua concorrente mais estabelecida, ela lançou seu próprio token SUSHI com a função de ser uma recompensa a mais aos que proverem liquidez ao protocolo. Esse conceito é chamado de liquidity mining e ao longo do tempo se mostrou uma prática responsável por atrair capital mercenário ao ecossistema, aumentando aos poucos a oferta total de tokens. Mesmo diante das vantagens que as exchanges descentralizadas possuem, elas têm limitações:
  • Menos liquidez que as corretoras centralizadas. A maioria dos trades ainda ocorrem em corretoras centralizadas (CEX). Com uma liquidez menor, os usuários podem sofrer com maiores slippages (o termo se refere a diferença entre o preço esperado de uma negociação e o preço pelo qual a negociação é executada). Diante desse cenário, com o crescimento das DEX, a liquidez nos pares de ativos mais populares cresceu significativamente, aumentando bastante a competitividade entre as duas. Os gráficos a seguir mostram o market share total de volume negociado nas principais plataformas do mercado cripto, sendo três plataformas centralizadas e em laranja a soma de todas as DEXes da rede Ethereum.

Figura 15 - Volume de mercado por exchanges

Fonte: Kaiko Research
Como podemos ver no gráfico abaixo, a diferença de volume entre o protocolo da Uniswap e a corretora Coinbase, uma das mais respeitadas do mundo, vem diminuindo consistentemente e atualmente estão quase com o mesmo volume de negociação em suas plataformas.

Figura 16 - Volume de mercado por pares

Fonte: Kaiko Research
  • Interoperabilidade. A maioria das DEXes permitem apenas negociações dentro de um mesmo ecossistema. Se for na blockchain da Ethereum, apenas tokens Ethereum e com formato compatível com o ERC-20. Nesse caso, tokens do ecossistema Solana ou Polkadot não são permitidos. Já as CEXes permitem negociação entre tokens de diferentes ecossistemas. Existem esforços envolvendo o aprimoramento de DEXes cross-chain, ou seja, que possuem uma interoperabilidade entre diferentes redes. Mas esse ainda é um processo em evolução.
  • Taxas de transação. Esse é um problema da rede Ethereum em específico, já que em outras redes as taxas são mais acessíveis. Por outro lado, tirando as taxas da rede e levando em consideração apenas as taxas das DEXes, elas são bem mais vantajosas do que o valor gasto em uma CEX.
O modelo de operação de uma DEX pode funcionar a partir de um livro de ordens, do mesmo modo que ocorre em exchanges tradicionais, ou por meio de um mecanismo novo desenvolvido no ambiente DeFi, que é chamado de pool de liquidez.

3.2.1 As pools de liquidez

Diferentemente das corretoras tradicionais, DEXes como a Uniswap não utilizam um modelo de “order book” ou “livro de ordens”. O mecanismo utilizado chama-se “pool de liquidez”.
Esse conceito é uma inovação da indústria cripto e permite que qualquer um possa prover liquidez ao mercado. Funcionam como contratos autônomos onde qualquer usuário pode ser um criador de mercado e prover liquidez a um par de ativos para pessoas que querem negociá-los, Em troca, o usuário ganha taxas pelo serviço. Isso, antes, só era algo viável para grandes players. Esse conceito pode ser conferido neste vídeo.
Os pools de liquidez são auxiliados por outros códigos, como o Automated market makers (AMMs), que ajudam a manter o equilíbrio dos pools por meio de fórmulas matemáticas. Esse conceito pode ser entendido neste vídeo. De maneira simplificada, quando alguém quer vender um token A para comprar um token B, ele não coloca uma ordem de compra e espera que ela seja executada. A troca será feita por meio do pool de liquidez A/B, composta por tokens de outros usuários (que receberão as taxas). A lei da oferta e demanda sempre fará com que a proporção entre os tokens da pool vá se desbalanceando do inicial. Quanto menos tokens B no pool existirem em relação a tokens A, mais tokens A serão necessários para trocar pela mesma quantidade de tokens B.

Figura 17 - Como funcionam as pools de liquidez

Fonte: viden.vc
Quando um provedor de liquidez fornece um par de ativos, ele recebe como “recibo” LP tokens (Liquidity Provider tokens). Os LPs tokens representam o quanto de porcentagem em relação ao total da pool de liquidez aquele usuário (que proveu liquidez) possui. Por meio dessa porcentagem é calculado o valor a se receber em taxas, que são divididas proporcionalmente entre todos os provedores de liquidez
As taxas arrecadadas por uma DEX vão para os fornecedores de liquidez e o restante é usado para pagar a execução dos contratos inteligentes da rede Ethereum, sem acumulação de excedentes de capital.

Figura 18 - Fazendo um swap de tokens

Fonte: Uniswap

Figura 19 - Provendo liquidez em uma pool

Fonte: Uniswap

3.2.2 Riscos de uma pool de liquidez

3.2.2.1 Impermanent Loss

O conceito de Impermanent Loss corresponde a perda temporária de fundos ao prover liquidez devido à volatilidade natural do mercado. Ele ocorre quando a pool de liquidez fica desbalanceada em relação ao momento inicial, de maneira que, em dólares, o token que mais se desvalorizou do par (ou menos se valorizou) será o de maior quantidade na pool.
Um provedor de liquidez que forneceu, em termos de valor em dólares, quantias iguais de dois tokens, agora, possuirá mais tokens com valor de mercado menor. Isso ocorre por conta do mecanismo de Automated Market Maker. Esse processo tende a se estabilizar e voltar ao equilíbrio com o tempo, ao menos em um par de ativos consolidados e que possua uma capitalização de mercado robusta. Quanto maior o tamanho dessas pools, mais estáveis serão.
Ao estudar uma possível entrada como provedor de liquidez em uma pool, esse é um dos principais riscos que deve ser levado em consideração para uma tomada de decisão consciente. Quanto mais correlacionado forem os ativos, menores são os riscos relacionados ao impermanent loss e vice-versa. Por conta desse fator, mesmo recebendo as taxas de transação, pode não ser vantajoso prover liquidez, compensando mais apenas holdar os ativos em sua wallet. Aqui, você pode conferir uma outra explicação sobre este conceito.

3.2.2.2 Rug pull

A expressão “rug pull” significa literalmente “puxar o tapete”. Esse processo é caracterizado por uma situação na qual os desenvolvedores ou grandes detentores de tokens de certo projeto vendem todos os seus recursos de uma só vez a mercado, a fim de sugar toda a liquidez existente para negociações e, consequentemente, acabam levando o preço do token a uma queda de mais de 99%, próximo a zero.
Como as principais plataformas descentralizadas de negociação funcionam a partir de um modelo de pools de liquidez, para que um usuário mal intencionado faça um rug pull não é preciso ter alguém comprando diretamente seus tokens. Para isso, é necessário apenas adicionar o máximo possível em uma pool de liquidez deste token, como um dos pares, de forma que ele receba outro token do par mais estável da pool.
Isso é característico de projetos pequenos e pouco transparentes, que normalmente focam mais em marketing e em comunidade do que em desenvolver algo diferente, disruptivo ou que agregue algo ao desenvolvimento da tecnologia.
Um dos maiores exemplos de rug pulls em 2021 foi o do Squid Game, um token criado a partir do hype de uma série que havia acabado de ser lançada na Netflix chamada Round 6. O token simplesmente carregava o nome da série (em inglês) e mais nada. Assim, conseguiu atrair milhares de fãs e de especuladores que buscavam ganhar dinheiro fácil e rápido.
A capitalização de mercado do token (preço a mercado versus a quantidade de tokens existentes) chegou a US$ 2,1 trilhões. Isso só foi possível porque uma porcentagem irrelevante do total estava sendo negociada no mercado e cerca de 99% de todos os tokens SQUID estavam na carteira do criador do contrato do projeto. O que ocorreu foi que ele se aproveitou do crescimento do valor do token e liquidou sua posição em segundos, lucrando às custas de todos e levando, praticamente, a zero o valor de mercado do projeto.

Figura 20 - A queda do token SQUID

Fonte: Coinmarketcap.com

3.3 As plataformas de empréstimo(lending)

As plataformas de lending proporcionam que o capital seja melhor alocado no mercado, permitindo a existência de serviços de empréstimos assegurados com colaterais e garantias. No mercado tradicional, uma pessoa consegue solicitar um empréstimo no banco oferecendo como garantia um bem de valor maior. No setor de finanças descentralizadas do mercado cripto, isso também é possível. As pessoas podem pegar criptoativos emprestados, entregando como garantia outros criptoativos. Isso é positivo, pois não existem muitas das barreiras do setor de finanças centralizadas, como restrições geográficas e legais ou a necessidade de possuir conta em um banco, com um bom “credit score” e a quantidade suficiente de colateral para convencer o banco a liberar o empréstimo.
Os principais protocolos de lending que existem se chamam Aave e Compound. Elas possuem algumas diferenças, porém possuem a mesma funcionalidade. São nativas do ecossistema da Ethereum e são plataformas de código aberto, que permitem que qualquer pessoa possa emprestar ou pegar emprestado criptoativos.

Figura 21 - Como funciona o empréstimo de criptoativos

Fonte: viden.vc
Entre os motivos de pegar criptoativos emprestados, fornecendo um colateral, ao invés de simplesmente vender os que possui e comprar os outros, está a necessidade de liquidez a curto prazo, como pagar um gasto inesperado sem a necessidade de vender seus ativos ou para alavancagem. Um exemplo de alavancagem seria deixar US$ 200 em ETH como garantia e pegar US$ 100 em stablecoins, a fim de comprar mais US$ 100 em ETH, com o intuito de rentabilizá-los provendo liquidez ou fazendo staking.
Para fornecer ou pegar um serviço de empréstimo é importante estar ciente dos principais riscos: ativos oferecidos como colateral se desvalorizarem a ponto de ocorrer uma liquidação forçada ou de precisar adicionar mais valor ao colateral para que isso não ocorra e o risco do contrato inteligente da plataforma utilizada. Ou seja, se o ETH se desvalorizar mais de 50%, aqueles US$ 200 em ETH que estavam como garantia do empréstimo de US$ 100 em stablecoin, agora, não cobre mais o valor do empréstimo. Nesse caso, a pessoa que solicitou o empréstimo receberá uma “margin call”, um aviso para que ele deposite mais colaterais para compensar a desvalorização, antes que caia mais e seja liquidado.

3.4 Como ocorre o processo de staking

Quem pensa em manter suas criptos a longo prazo e não faz o staking das mesmas, é como ter um apartamento vazio esperando a sua valorização e não colocá-lo para alugar. Staking é uma das formas de ter renda passiva com cripto. O usuário trava seus ativos por um período, a fim de que eles realizem determinado papel dentro da rede. Para isso, recebe uma recompensa. A sua principal atribuição é em blockchains com o algoritmo de consenso Proof-of-Stake, onde o usuário deixa seus ativos travados como garantia de que está contribuindo corretamente para a validação das transações dos novos blocos da blockchain. Isso pode ser feito de duas maneiras:
Diretamente, tornando-se um validador da rede e/ou operando um node. O risco é sofrer “slashing”. Isso significa a perda de seus ativos como uma punição por mau comportamento ou má fé no processo de validação.
Indiretamente, delegando seus tokens para um validador da rede por meio de uma pool de staking. O risco aqui é a custódia por terceiros. É fundamental escolher um validador honesto em uma plataforma confiável para mitigar esses riscos.

Figura 22 - Staking da Ethereum

Fonte: Coinmarketcap

Figura 23 - Staking da Polkadot

Fonte: Coinmarketcap

Figura 24 - Staking dos principais ativos

Fonte: CoinMarketCap
Existem outras atribuições ao staking, como o holder do token ter poder de voto na governança do protocolo ou dos tokens em staking servirem como um seguro, que podem ser usados para mitigar problemas caso ocorra algum exploit, hack ou o protocolo se torne insolvente, sendo esse o risco que o investidor corre em troca da rentabilidade ganha. É fundamental entender o tipo de stake de cada opção disponível para investir e estar ciente dos riscos envolvidos de cada uma delas. O mecanismo de staking também é muito importante para a política econômica dos tokens de um ecossistema, pois através desse mecanismo ocorre uma diminuição dos tokens em circulação. Como a oferta a mercado dos mesmos diminui, isso contribui para uma valorização do preço.

3.5 Stablecoins e sua importância para o setor DeFi

Como o próprio nome já diz, as stablecoins são tokens estáveis lastreados a moedas fiduciárias, como o dólar, e possuem função fundamental no setor DeFi. Por serem uma reserva estável de valor, elas servem como uma proteção da volatilidade do mercado, de forma que não sejam necessárias conversões para moedas fiduciárias a todo momento. Isso facilita a interação entre moedas fiduciárias e criptoativos. Além disso, elas contribuem bastante para a liquidez dos principais protocolos DeFi.
Em um cenário em que não existam stablecoins, se tenho ETH e desejo realizar a venda do mesmo em dólar, é necessário que uma corretora centralizada intermedie a minha transação, para que depois eu possa sacá-los e possuir a custódia dos mesmos. Caso no dia seguinte, o usuário deseje novamente comprar ETH com esses dólares, será necessário fazer o processo inverso. As stablecoins sanam essa necessidade, facilitando essas transações, pois são ativos tokenizados pareados a moedas fiduciárias.

3.6 Os derivativos do mundo critpo

Um derivativo é um contrato com valor atrelado a outro ativo subjacente, como de ações, commodities, índices, títulos públicos, etc. Trazendo o conceito ao mercado cripto, eles podem ser definidos como ativos do mundo real tokenizados em blockchain. Ele permite uma exposição ao preço dos ativos sem precisar adquiri-los diretamente e permite que eles possam ser negociados sem maiores complicações. Qualquer pessoa que possua uma wallet tem acesso a qualquer ativo do mundo real por meio de protocolos como o Synthetix. Há uma infinidade de possibilidades de adoção desse segmento, que ainda é embrionário.
Existem duas categorias de ativos sintéticos: os normais e os inversos. Os sintéticos normais são correlacionados diretamente com seus respectivos ativos. Os sintéticos inversos são negativamente correlacionados com seus respectivos ativos, servindo como um hedge para uma eventual desvalorização. Por exemplo, se o ETH está sendo cotado em US$ 1 mil e cai para US$ 800, um sintético inverso comprado no preço inicial corresponderá a US$ 1,2 mil.

Figura 25 - Synthetix

Fonte: viden.vc
Em protocolos como a Synthetix, podem ser feitas a emissão e a negociação de ativos sintéticos em formato de tokens. O protocolo rastreia os preços dos ativos do mundo real, utilizando serviços de oráculo descentralizados, que obtém informações do mundo real de fontes confiáveis, e as trazem para dentro da blockchain.
Eles podem ser criados por qualquer um que seja capaz de oferecer colaterais e aceitar o risco de volatilidade do ativo em questão. É preciso fazer um processo de stake do token da Synthetix (SNX), com uma margem de segurança bem maior como colateral. Por exemplo, para emitir US$ 100 em dólar sintético (sUSD) são necessários US$ 650 em tokens SNX como colateral. Após esse processo, os tokens podem ser transacionados em outras DEXes.
Além de poder fazer o mint de novos sintéticos, é possível apenas comprá-los diretamente em uma DEX. A lista dos ativos disponíveis atualmente na plataforma da Synthetix pode ser conferida aqui.
Como já foi mencionado anteriormente, as finanças descentralizadas otimizam o processo atual de relações financeiras, por inúmeras características. No futuro, não será surpresa se o ativo mais negociado da Uniswap não for o BTC ou o ETH, mas sim ações da Tesla, o índice do petróleo ou títulos do tesouro americano, por exemplo. Isso seria o processo final de adoção da tecnologia, quando os ativos que não são criptonativos, passarem a depender da estrutura cripto para realizarem suas relações de trocas.

3.7 Oráculos e sua importância para o setor DeFi

Um oráculo possui a função de fazer a tradução dos dados externos (dados off chain) para dados disponíveis em blockchain (dados on chain). Sendo assim, os oráculos surgem como uma ferramenta fundamental para que a tecnologia blockchain seja utilizada, a fim de receber informações do mundo real que não estavam disponíveis para uso.
A atual aplicabilidade dos oráculos na blockchain atualmente é relacionada a serviços financeiros e ao mercado Defi. Atualmente, a Chainlink é a maior rede de oráculos descentralizados que existe atualmente. Ela se expandiu ao ponto de fornecer seus serviços a múltiplas blockchains e soluções de segunda camada, como Ethereum, Polygon, Polkadot, Solana e Binance Smart Chain (BSC).

Figura 26 - Como funciona um oráculo

Fonte: viden.vc

3.8 Bridges: as ligações entre blockchains

As soluções de bridges são uma forma de blockchains diferentes se comunicarem e possibilitarem que os usuários transfiram ativos de uma para a outra. A interoperabilidade é um dos principais problemas entre ecossistemas distintos, como entre Ethereum, Solana, Cardano, Polygon, Binance Smart Chain (BSC), etc. O compartilhamento de informações e a transferência de tokens são algumas das demandas resolvidas através dessas soluções. Tokens nativos de blockchains, na prática, não podem ser transferidos a outros ecossistemas. A forma como as bridges funcionam é travando os ativos desejados em um contrato inteligente na rede nativa e emitindo um token sintético equivalente a ele na rede desejada, de forma que sempre possa ser resgatado pelo seu “lastro” original.
Por exemplo, a criptomoeda Ether pode ser representada na rede Polygon através do token WETH (Wrapped Ethereum, ou Ethereum embrulhado), graças a uma solução de bridge que faz essa função.
Um dos principais problemas dessas soluções é a questão da segurança, pois ocorreram diversos casos de hacks e exploits em bridges. A empresa de análise Chainalysis, publicou em agosto de 2022, um relatório dizendo que somente em 2022 foram 13 casos de exploits em soluções de bridges, representando uma quantia US$ 2 bilhões de fundos drenados, que correspondem a 69% de todos os recursos roubados do ecossistema cripto no ano. Essa grande quantidade de recursos roubados é o resultado da fragilidade dessas soluções. Elas acabam concentrando grande quantidade de recursos em um único lugar e tornam-se um grande incentivo a hackers na busca por vulnerabilidades em seus contratos, visto que é muito lucrativo. O maior caso de hacking de uma bridge foi o da Ronin Bridge, do jogo Axie infinity, onde foram roubados mais de US$ 600 milhões.

3.9 Descentralizar é o futuro das finanças

O setor de finanças descentralizadas é muito amplo, complexo e pouco intuitivo ao usuário comum, motivo pelo qual, atualmente, a maioria de seus usuários são criptonativos. Assim, como qualquer disrupção tecnológica e inovadora, o seu processo de evolução depende de sua curva de adoção, que é exponencial. Ela passará a ter uma maior capilaridade na sociedade quando a Experiência do Usuário (UX) for agradável e a utilização dessas soluções forem tão simples quanto fazer um PIX ou comprar uma ação em sua corretora preferida. Muito provavelmente, no futuro, as principais aplicações que conhecemos hoje no mercado tradicional terão um front end como a do sistema financeiro tradicional e um back end no mercado DeFi. Isso irá ocorrer, simplesmente, porque o processo é mais otimizado dessa forma.
Outro ponto fundamental para sua adoção é a questão regulatória. Atualmente, existem muitos avanços nesse sentido, embora estejamos longe de um modelo ideal e aceito pela grande maioria dos países. Uma regulação forte permitirá que o investidor institucional consiga mensurar com maior facilidade os riscos envolvidos e consiga participar com maior tranquilidade das oportunidades existentes nesse universo.

Figura 27 - Setores e ativos do mercado DeFi

Fonte: viden.vc
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
as nossas vidas.
Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro