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2. Ethereum: a internet do mundo cripto

A Ethereum é uma blockchain e uma plataforma que permite a programação de aplicativos descentralizados, por meio de contratos inteligentes, os smarts contracts. Na rede Ethereum, também circula uma criptomoeda chamada Ether, além de outros tokens independentes que podem ser criados por desenvolvedores. O token Ether funciona como recompensa, é a forma pela qual os validadores são remunerados pelo seu trabalho de validação na rede. Aliás, é por meio dele que são pagas as taxas de novas transações.
Na concepção de seus criadores, a Ethereum é um grande computador descentralizado de escala mundial, uma plataforma segura para executar contratos, confirmar posses, e programar de maneira segura e distribuída, uma vez que tudo fica registrado na sua blockchain.
Um dos principais benefícios da rede Ethereum é a possibilidade de desenvolvedores criarem aplicações por meio de smarts contracts. Essa aplicação se constitui, basicamente, por algumas linhas de códigos que ficam armazenadas na blockchain para que qualquer usuário, ou até mesmo outro smart contract, possa comunicar-se com aquele pedaço de informação, fazendo com que ele seja executado.
Uma aplicação de código aberto, assim, permite que aqueles que o acompanham saibam exatamente o que esse programa faz e qual é o seu estado atual. Smart contracts, então, são contratos digitais autoexecutáveis, que usam a tecnologia para garantir que os acordos firmados sejam cumpridos. De forma mais clara, esses contratos inteligentes definem regras e consequências, assim como um documento tradicional. Dessa forma, estabelecem benefícios, penalidades e obrigações de cada parte. A grande diferença reside no fato de que um smart contract não pode ser adulterado e é autoexecutável. Ele garante a segurança da execução do acordo, e a segurança é garantida por meio da tecnologia blockchain.
Mas, como isso pode ser útil? Simplesmente, o smart contract da Ethereum permite implementar essa tecnologia dentro da blockchain de maneira automática, transparente e fiável. As próprias linhas de código de um smart contract podem possuir uma carteira e participar do processo transacional.
A rede Ethereum, por sua vez, é a infraestrutura para que diversos tipos de aplicações possam ser desenvolvidos dentro dela, aproveitando-se de sua segurança. Em troca, ela exige que essas aplicações usem o token Ether para pagamentos de taxas de transação, forçando uma demanda natural pelo ativo. A moeda também é negociada em corretoras centralizadas e descentralizadas. Outros ativos construídos na blockchain da Ethereum, como os tokens do tipo ERC-20, também exigem ETH como pagamento de taxas associadas a quaisquer transações.
O ERC-20 é o formato de token mais usado no mundo cripto, sendo um contrato inteligente com uma estrutura de dados preestabelecida que permite interoperabilidade e compatibilidade. Com o uso desse tipo de token, os validadores obtêm remuneração por toda a demanda de transações da rede.
Como se nota, a rede Ethereum foi criada justamente para ampliar os casos de uso que antes eram oferecidos pelo Bitcoin, mas sua principal utilidade é servir como um computador descentralizado mundial. A Ethereum possui várias características que possibilitam o alcance desse resultado. Entre esses usos, estão:
• Descentralização: Atualmente, a validação da Ethereum é composta por operadores de "nós" (nodes) independentes e que precisam da aprovação da maioria para validar novos blocos de transações. Para isso, ela emprega o algoritmo de consenso intitulado Proof-of-Stake, em que os validadores devem fornecer uma quantidade de tokens ETH como garantia de que estão validando corretamente as informações nos novos blocos criados. Isso elimina a necessidade de uma autoridade central (como governo e instituições financeiras).
• Sem permissão: Não é necessária nenhuma autorização para participar da rede. Qualquer um pode entrar e interagir sem restrições.
• Segura: As redes que usam o mecanismo de consenso Proof-of-Stake funcionam de forma que os validadores precisam "apostar", ou colocar como garantia, uma quantia significativa de tokens. Isso é uma forma de garantir que ele esteja validando corretamente os novos blocos e esteja apto a receber as recompensas. Caso contrário, perderá sua garantia. Dessa forma, há um mecanismo de incentivo natural para que todos os validadores cooperem e forneçam um serviço correto de validação e que não existam benefícios em tentar burlar a rede.
• Código open source: Qualquer um pode checar o código-fonte da Ethereum, basta ter uma conexão com a internet. Essa é uma característica fundamental, pois ela possibilita que qualquer desenvolvedor acesse seu código e possa contribuir com a rede, gerando confiança e possibilitando a integração de novos desenvolvedores. Além disso, usuários podem apresentar propostas de melhorias na rede Ethereum, que são votadas pela comunidade.
• Transparência: Toda transação realizada na blockchain da Ethereum pode ser visualizada por quem tenha interesse, em qualquer lugar do mundo.
• Pseudoanônimo: Os endereços de carteiras públicas não estão diretamente vinculados a nenhuma informação pessoal que identifique quem comanda cada carteira. Entretanto, é importante apontar que o anonimato completo é difícil de alcançar. A rede não é totalmente anônima, pois os endereços de qualquer transação são visíveis na blockchain, o que permite que a carteira seja rastreada e, eventualmente, leve a alguma informação pessoal do detentor da wallet.
• Política monetária flexível: Inicialmente, foram criados 72 milhões de tokens ETH. Após a EIP 1559, que implementou o modelo de queima de tokens, quantidade de ETH em circulação varia de acordo com a demanda por novas transações na rede, que impacta diretamente em uma disputa por espaço nos novos blocos criados (quanto maior a demanda, maiores as taxas cobradas). No momento, o fornecimento depende da demanda por transações. Com isso, sua produção é variável.
Diante desses pontos, quais são os principais recursos da Ethereum?
Podemos considerá-la a primeira blockchain compatível com smart contracts. De todo modo, para entender a rede em toda sua complexidade, é necessário ter uma visão clara sobre todas as suas aplicações, as quais listamos e explicamos a seguir:
  • Ether (ETH): O ETH é a moeda digital nativa da Ethereum. O token possui três funções efetivas: 1) ele captura o valor da rede Ethereum; 2) é moeda de troca entre os usuários da rede; e 3) combustível (gás) utilizado para que a rede funcione. São as taxas pagas em ETH que recompensam os validadores por criarem novos blocos. Gás é a unidade interna de valor para calcular o preço das taxas. A taxa de gás é determinada pela demanda/concorrência por espaço nos blocos. Tanto validadores quanto os programadores de smart contracts cobram taxas de transação na rede Ethereum.
  • Smart contracts: São linhas de códigos que executam uma função pré-programada sem a necessidade de uma instituição intermediária, garantindo que o que foi acordado seja cumprido. De forma geral, são, basicamente, contratos como qualquer outro do mundo real, que podem ser lidos pelas partes envolvidas e que não podem ser corrompidos por nenhuma delas. Por meio dos smart contracts, é possível mandar ou receber tokens, criar a representação de uma empresa ou propriedade, armazenar registros, entre outros. Os contratos inteligentes permitem o surgimento de qualquer tipo de negociação.
  • Solidity: É a principal linguagem usada para programar na Ethereum. É a língua que permite escrever os smart contracts, desenvolver Dapps, entre outras possibilidades. Solidity não é o único idioma da Ethereum. Além dele, há outras linguagens, como a Vyper.
  • Dapps: São os aplicativos descentralizados, ou seja, programas, aplicativos ou ferramentas que podem ser desenvolvidos na rede Ethereum. Os Dapps podem ser usados para uma infinidade de finalidades, como aplicações do mercado DeFi, Blockchain games, DAOs, entre outros.
  • Organização Autônoma Descentralizada (DAO): São organizações que existem de modo independente a uma liderança central. Nas empresas tradicionais, a propriedade é dividida por meio de ações entre seus investidores. Uma DAO, por sua vez, é de propriedade fracionada de seus detentores de tokens. Assim como os acionistas, os investidores da DAO também possuem direito a voto. Além disso, as regras e as execuções de uma DAO são determinadas por smart contracts.
  • Máquina Virtual da Ethereum (EVM): Criado em 2014 por Gavin Wood, o EVM é um software que simula o comportamento de um computador. Ele permite que os usuários eliminem riscos, falhas e ataques, além de testar recursos. O EVM executa todos os Dapps e smart contracts compatíveis com ele.
Atualmente, o Ether é a segunda maior criptomoeda do mercado e a rede Ethereum conta com o maior número de desenvolvedores de uma blockchain. Hoje, o ecossistema da Ethereum é visto como a principal porta de entrada do ambiente cripto junto ao bitcoin. Entretanto, como qualquer nova tecnologia, a rede Ethereum também possui falhas. O principal problema, atualmente, da blockchain, é sua escalabilidade. Em 2022, a rede pode processar uma média de transações por segundo, muito abaixo de canais de pagamento tradicionais, como da rede de pagamentos Visa, que processa cerca de 1,7 mil por segundo. Para resolver esse problema, há redes de segunda camada (layer 2), que oferecem execução de transações fora da Ethereum e enviam as provas compactadas para a rede principal, gerando escalabilidade sem comprometer a segurança. A outra abordagem é o progresso do roadmap do protocolo, que recentemente passou pela fase "The Merge". Essa foi uma grande atualização da rede que transformou o algoritmo de consenso de PoW para PoS. Isso, por sua vez, abriu o caminho para outra atualização, a "The Surge", que irá diminuir o custo das taxas e aumentar o número de transações.
Outro problema que a Ethereum pode enfrentar é a concorrência com outras blockchains, como a Solana, Polkadot, Cosmos, Avalanche, Polygon, Arbitrum, entre outras. Parte significativa destas redes é concorrente direta da Ethereum, enquanto outras são soluções complementares. De qualquer modo, todas visam suprir deficiências da rede Ethereum, como menores taxas ou melhores serviços. Outro risco, esse atrelado a qualquer blockchain, é o surgimento de alguma vulnerabilidade no código ou no smart contract que permita o enfraquecimento da rede. Enquanto isso, a Ethereum leva vantagem quando comparada a outras redes no teste do tempo, já que blockchains mais novas são mais propensas a sofrerem com vulnerabilidades.
Por fim, para facilitar a diferenciação entre as duas principais criptomoedas, a seguir apontamos as diferenças entre o Bitcoin e a Ethereum.

Quadro 2 - Diferenças entre as duas principais criptomoedas

Fonte: viden.vc

2.1 Os primeiros dias da Ethereum

Ao contrário do Bitcoin, que tem uma origem misteriosa, a história do Ethereum é documentada e conhecida publicamente. Vitalik Buterin e vários outros cocriaram a Ethereum. Embora a blockchain Ethereum tenha vários fundadores, foi Buterin quem inicialmente publicou um whitepaper explicando o conceito da rede, em novembro de 2013. Após o trabalho inicial de Buterin, outros cérebros embarcaram em várias áreas para ajudar a concretizar o projeto. Além de Buterin, Gavin Wood, Charles Hoskinson, Amir Chetrit, Anthony Di Iorio, Jeffrey Wilcke, Joseph Lubin e Mihai Alisie são considerados cofundadores da Ethereum.
A Ethereum teve início no começo de 2014, quando Buterin apresentou o conceito da blockchain aos olhos do público em uma conferência do Bitcoin em Miami, Flórida (EUA). Após a apresentação, o projeto levantou capital por meio de uma Oferta Inicial de Moedas (ICO) – equivalente a um IPO do mercado financeiro tradicional – no final do mesmo ano, vendendo milhões de dólares em tokens ETH. Esses fundos foram usados no desenvolvimento do projeto. Entre 22 de julho e 2 de setembro de 2014, a venda de ativos arrecadou mais de US$ 18 milhões em valor de ETH na época. Os valores foram pagos em Bitcoin.
Embora as moedas ETH tenham sido compradas em 2014, a blockchain Ethereum só entrou em operação em 30 de julho de 2015. Isso significa que os compradores do Ethereum tiveram que esperar o lançamento da blockchain, antes que pudessem se mover ou usar seu ETH.
O nascimento da blockchain Ethereum, em julho de 2015, deu vida ao projeto, mas seu desenvolvimento é um processo que vem se estendendo por anos. O lançamento deu às pessoas a oportunidade de montar seus aparelhos de mineração e começar a construir na rede ajudando na validação de seus blocos.
Desde o lançamento da Ethereum, a blockchain passou por muitas atualizações por conta da evolução natural da rede. Cada atualização alterou certos aspectos da blockchain. A Beacon Chain, por exemplo, é uma blockchain paralela que foi criada para se fundir com a rede Ethereum, possibilitando a mudança do mecanismo de consenso Proof-of-Work (PoW) para um mecanismo de consenso Proof-of-Stake (PoS).
Diversos projetos construíram aplicativos na blockchain da Ethereum ao longo dos anos. Em certos momentos, a rede teve dificuldades quando o nível de atividade aumentou notavelmente. Isso ocorreu em 2017, durante o lançamento dos CryptoKitties – uma coleção de gatos digitais no formato de NFTs, em 2020 e 2021, quando os projetos de finanças descentralizadas (DeFi) receberam atenção significativa.
O que deve mitigar esses problemas será a próxima atualização: The Surge. Esta, por sua vez, irá aumentar a escalabilidade através do aumento do espaço dos blocos da rede utilizado pelas blockchains de segunda camada chamadas de rollups (esse conceito será aprofundado no capítulo 14). Isso irá fazer com que os espaços nos blocos não sejam mais tão disputados pelos solicitantes de transações (aumento da oferta de espaço).

Figura 6 - O futuro da Ethereum

Fonte: Vitalik Buterin. Tradução: viden.vc

2.2 O hack da DAO do Ethereum

Um dos eventos mais significativos da história da Ethereum foi o hack sofrido pela DAO que a controlava. A DAO da rede Ethereum é um instrumento que visa, essencialmente, democratizar a alocação dos ativos do fundo de desenvolvimento do ecossistema da própria rede. Assim, os usuários não precisavam confiar em ninguém, apenas confiar que o código de uma DAO era completamente visível e verificável por qualquer pessoa. Em suma, as partes interessadas enviavam ETH para um fundo da DAO e recebiam tokens desta DAO em troca. Esses tokens poderiam, na época, ser usados para votar onde a DAO alocaria os recursos. Ela atraiu cerca de US$ 150 milhões em ETH em 2016, dado o preço do dólar na época.
Em 2016, no entanto, a DAO sofreu um hack que levou mais de 3,6 milhões de ETH, gerando uma discussão de como resolver o problema. A comunidade da Ethereum entrou em dissenso: parte dela queria alterar a blockchain para, essencialmente, anular o hack. Membros opostos discordaram, expressando que tal jogada iria contra o conceito abrangente de imutabilidade da tecnologia blockchain.
A maioria da comunidade da Ethereum concordou, então, em alterar a blockchain em resposta ao hack, levando a um fork da rede. O fork resultou em duas blockchains separadas e duas cópias de todos os ativos existentes. A blockchain Ethereum bifurcou para reverter o hack e recuperar os ativos perdidos. A blockchain resultante é a que agora detém o nome Ethereum. Por sua vez, a versão original é a que conhecemos, atualmente, como Ethereum Classic (ETC).
Algumas das atualizações da blockchain Ethereum, ao longo do tempo, foram uma parte planejada da progressão da mesma, embora outras tenham sido ajustes baseados em eventos ou fatores que exigiam mudanças na blockchain. O fork da rede, por exemplo, serviu como um esforço para contornar um hack que afetou significativamente a rede.

2.3 O futuro da Ethereum

A rede Ethereum é um player significativo no espaço criptográfico, como evidenciado por sua capitalização de mercado de mais de US$ 180 bilhões e pela vasta gama de soluções que as entidades construíram a partir de sua infraestrutura. Segundo seu roadmap, a rede ainda passará por inúmeras modificações no futuro, como veremos a seguir.

2.3.1 The Merge chegou: o que vem depois dele?

O conjunto de atualizações do roadmap da Ethereum é composto por cinco fases que têm como objetivo aumentar eficiência, escalabilidade e usabilidade da rede, bem como melhorar a política monetária do token ETH. Além do The Merge, ocorrido em 2022, temos as fases The Surge, The Verge, The Purge e The Splurge. Elas estão sendo desenvolvidas de forma simultânea, mas com certa ordem de prioridade. O conjunto das fases, antigamente, era intitulado "Ethereum 2.0", termo abandonado pelos próprios desenvolvedores da rede para evitar confusões a respeito da criação de um novo token ETH. "A diferença entre as redes Bitcoin e Ethereum revelou que enquanto os apoiadores do Bitcoin acreditam que sua blockchain está 80% pronta, os apoiadores do Ethereum acreditam que sua plataforma está apenas 40% pronta", diz Vitalik Buterin (Fonte).
Mas antes de entrar em cada uma das fases seguintes, cabe uma breve introdução sobre a fase The Merge. Caso você queira se aprofundar mais sobre essa atualização em específico, recomendamos a leitura do texto "The Merge: a maior atualização da história do mercado cripto".

2.3.2 The Merge

A essência dessa atualização foi a mudança do algoritmo de consenso para validação de novos blocos de transação, de "Proof-of-Work" para "Proof-of-Stake". Essa alteração acabou com a famosa mineração de Ethers, dando lugar ao modelo de staking dos tokens. O modelo de mineração funciona por meio da solução de fórmulas matemáticas complexas por tentativa e erro, utilizando um alto poder computacional e alto gasto energético. Esse mecanismo foi substituído pelo de staking de ETH por parte dos validadores. O ato de staking serve como garantia de que os mesmos estão validando corretamente as informações, pois caso não o façam perderão parcialmente ou totalmente seus tokens apostados.
Essa mudança do algoritmo de consenso foi alcançada através do processo de fusão de duas blockchains distintas (por isso o termo "merge"): a rede Ethereum com a Beacon Chain – uma rede desenvolvida do zero, que já contém o Proof-of-Stake como consenso, desenvolvida exclusivamente para esse processo. De maneira mais técnica, o que aconteceu foi a manutenção da camada de execução da rede Ethereum e a incorporação da camada de consenso da Beacon Chain.
As principais vantagens dessa mudança do algoritmo de consenso foram:
  • Redução do gasto energético necessário pelos validadores para validação de novos blocos em mais de 99%.
  • Desincentivo à venda de tokens ganhos pelos validadores, por dois motivos:
  • Custos operacionais menores, se comparados ao processo de mineração, com menor necessidade de venda dos lucros obtidos para financiar esses custos (como conta de luz ou pagamento do maquinário de mineração);
  • Recompensas progressivas conforme maior quantidade de tokens alocados em staking.
  • As emissões de novos tokens por blocos validados foram reduzidas em 90%; impacto equivalente a 3 halvings do BTC de uma vez só.
Essa atualização somada a Proposta de Melhoria da Ethereum (EIP) 1559, aprovada em agosto de 2021, que implementou o sistema de queima de tokens, alterou significativamente a política monetária do token ETH. Porém, existem outros problemas importantes para serem solucionados, relativos à arquitetura da rede. Diferentemente do que muitos pensam, The Merge não irá solucionar o problema de escalabilidade e das altas taxas cobradas aos usuários. As taxas de transação estão relacionadas à camada de execução, e a atualização em questão se trata da camada de consenso da rede. Isso será atribuição das próximas etapas do conjunto de atualizações, sobre as quais falaremos a seguir.

2.3.3 The Surge

The Surge é a segunda etapa do conjunto de atualizações. Seu foco é escalar a Ethereum, aumentando o protagonismo dos rollups (um tipo específico de solução de segunda camada), algo que está previsto para ocorrer em 2023. Com esse direcionamento, a estrutura da Ethereum vem sendo transformada de uma blockchain monolítica para uma blockchain modular.
Sem os rollups, os nodes da rede Ethereum executavam e armazenavam todas as transações da blockchain. Isso, por um lado, é ótimo para a segurança, mas, por outro, acaba sendo um fator limitador quando falamos de escalabilidade. Uma alternativa a esse modelo é a fragmentação da blockchain e se baseia na manutenção da camada de consenso na rede Ethereum (segurança) e a delegação da camada de execução das transações para os rollups, o que aumenta a eficiência do processo e mantém a segurança da rede principal. Com maior oferta de espaço nos blocos de transação, o objetivo é que isso reduza o valor das taxas cobradas dos usuários.
A ideia inicial era que isso fosse atingido por meio do primeiro modelo de shardings proposto. Porém, o roadmap da Ethereum foi pivotado e, agora, a forma com que a rede vai se encaminhar para se tornar uma blockchain modular pautada no "rollup-centric roadmap" será diferente. Em teoria, esse novo modelo é mais simples e mais eficiente e será alcançado através de uma proposta chamada "Danksharding".
Os impactos da atualização devem ser no tamanho e no formato dos blocos, além do formato das informações contidas neles. A atualização Darksharding é bastante robusta e deve levar um tempo até ser concluída e utilizada na rede principal da Ethereum. Por isso, os desenvolvedores propuseram um EIP (EIP 4844) para implementar o primeiro passo. Esse EIP foi chamado de proto-danksharding. O proto-danksharding deverá implementar as etapas necessárias para ter compatibilidade com o Danksharding. Ele também deve impactar em uma redução de até 100 vezes nas taxas de transação das atuais soluções de rollups, como Arbitrum e Optimism. Hoje, o espaço reservado para isso se restringe a uma quantidade de cerca de 50 a 100kb de dados. Com o proto-danksharding, essa capacidade deve subir para 1MB. Com o Danksharding completo, para 16MB.

2.3.4 The Verge

The Verge é a terceira etapa do conjunto de atualizações. Seu foco é introduzir as chamadas "Verkle trees" no lugar das "Merkle trees". De forma simples, elas são a forma de armazenamento de todas as informações da rede (fazem a função de banco de dados com as informações de todas as carteiras, contratos inteligentes, saldos monetários, entre outras informações que devem ser lembradas pela blockchain). O objetivo das duas é o mesmo: otimizar o armazenamento dos dados da rede e assim torná-la mais escalável.
Através desses mecanismos, os nodes conseguem confirmar a veracidade de um grande conjunto de informações anteriores, necessárias para validar novos blocos da rede, fazendo uso de apenas uma pequena amostra deles. Isso afeta significativamente a quantidade necessária de dados que os nodes validadores precisam possuir diretamente.
A diferença entre as Merkle trees e as Verkle trees está na eficiência com que isso é feito. A verificação, por meio das Verkle trees, chega a ser entre seis e oito vezes mais simples, mais rápida e com menor quantidade de dados do que o modelo ideal de Merkle trees, além de até 30 vezes mais eficaz do que o modelo de Merkle trees existente atualmente na rede Ethereum, chamado de hexary Patricia trees. Essa mudança permitirá que os nodes validem um bloco sem armazenar o estado da rede (processo conhecido como "stateless clients"). A tecnologia SNARK tem capacidade de otimizar ainda mais esse processo e reduzir o tamanho das amostras para próximo a zero. Após essa atualização, a verificação de dados da rede deve se tornar mais democrática e descentralizada e, possivelmente, se torne viável, inclusive, a validação de blocos por smartphones, segundo o próprio Vitalik Buterin.

2.3.5 The Purge

The Purge é a quarta etapa do conjunto de atualizações. A ideia defendida é reduzir o espaço do disco rígido necessário pelos validadores de forma que eles não precisem mais armazenar permanentemente todos os blocos históricos da rede.
Atualmente, se um novo client (aplicativo que possibilita a comunicação ponto a ponto na rede) quiser se juntar a Ethereum, ele deve fazer o download de todos os blocos passados desde o início, o que representa uma quantidade imensa de informações. Portanto, o foco dessa etapa é eliminar uma série de dados históricos que não são mais necessários. Após sua implementação, dados de mais de um ano deixarão de ser armazenados pelos clients. Isso significa que os requisitos de hardware para os nodes e o volume de informações enviadas serão menores.

Figura 7 - The Verge e The Purge

Fonte: Ethereum Foundation. Tradução: viden.vc

2.3.6 The Splurge

The Splurge é a quinta e última etapa do conjunto de atualizações. É uma composição de diversas atualizações menores, que devem garantir que a rede funcione sem problemas após os quatro estágios anteriores, além de simplificar o uso da Ethereum e torná-la mais acessível a um usuário comum.
Após a conclusão de todas essas etapas propostas, espera-se que a Ethereum consiga processar cerca de 100 mil transações por segundo. Se essa previsão feita por Vitalik realmente se concretizar, ela será uma das maiores revoluções da indústria blockchain, pois resolverá com sucesso o problema atual de dimensionamento da rede, mantendo sua segurança e descentralização e, portanto, o trilema das blockchains. "Se tudo isso for feito e nada mais mudar depois disso, ficarei extremamente feliz. No momento, sinto que isso cobre tudo o que é necessário para o Ethereum não apenas sobreviver, mas até prosperar a longo prazo", comentou Vitalik Buterin (Fonte).
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
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Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro