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10. WAGMI: o poder do meme e da comunidade

Comunidades são formadas para que exista colaboração e compartilhamento de ideias, o que aumenta tanto a solidariedade quanto a unidade entre os indivíduos. Ao gostarmos de um assunto, por exemplo, nós compartilhamos com terceiros e/ou procuramos outros que pensem do mesmo modo que nós. É natural pensar que o mesmo ocorra com as criptomoedas. Como o mundo das criptos ainda é jovem e estamos em meio a uma tecnologia nascente, o constante compartilhamento de informação é vital para adoção e inovação.
Na Web3, a descentralização é a propriedade compartilhada. Quando toda a comunidade é oficialmente proprietária de um projeto, cada indivíduo sente um maior senso de envolvimento. Isso ocorre porque é essa comunidade que vota em todas as decisões, promove os símbolos e evangeliza o seu projeto para o mundo. Essas comunidades são microeconomias em si mesmas e, frequentemente, são descritas como estados de rede.
As comunidades engajadas também atuam como as melhores defensoras nas mídias sociais. Especialmente para novos projetos na blockchain, esse tipo de suporte orgânico é indispensável. Comunidades ativas ainda impulsionam o engajamento de novos membros, explicando diferentes tipos de produtos e respondendo perguntas.
Ter membros bem informados liderando o envolvimento da comunidade ajuda a aumentar a compreensão e o apoio da mesma. Reconhecendo esses benefícios, muitos projetos executam uma série de programas de recompensas e iniciativas de desenvolvimento para suas comunidades, permitindo que elas ganhem tokens ou prêmios por seu engajamento nas mídias sociais. São exercícios importantes para garantir que as comunidades se sintam valorizadas e engajadas.
Do mesmo modo, os memes influenciam e representam a nossa sociedade de diversas maneiras. Por isso, não é de se estranhar que passem a misturar a cultura pop com as referências econômicas, remixando e memetizando o conteúdo digital, bem como apresentando como resultado comentários que refletem diferentes preocupações e contestações públicas sobre o atual estado da nossa sociedade.
Como defende Sobande, pesquisadora em estudos de mídias digitais, a cultura do remix digital pode ser usada de maneira abstrata, mas há inúmeros exemplos práticos no qual ela vem sendo empregada, como no uso generalizado de memes e GIFs econômicos. Isso envolve desde o redirecionamento de como a economia se comunica com o seu público até como são usadas as fotos e as palavras de desenvolvedores e investidores, que podem usar tons mais críticos do que o usual para opinar sobre ativos ou pessoas, ou, até mesmo, mais agressivos do que seria aceitável.
E isso pode ser feito porque, como ressalta Sobande[1] (2019, p. 11), de algum modo a crítica e a agressão passaram a ser encaradas como engraçadas no ambiente digital. É esse tipo de lógica, em que a memetização, o remix de conteúdos e os novos usos propiciados pelas redes sociais tornam possível o surgimento dessa cultura. A combinação de mensagens rápidas, marcantes e que possam ser usadas como memes ou mensagens facilmente repassadas a outros leitores: isso é a cultura memética, que remete aos conteúdos culturais.
Quando olhamos para a história das criptomoedas e como elas chegaram onde estão, podemos ver a importância do senso de comunidade. O ecossistema criptográfico é construído sobre esse espírito de comunidade. Na verdade, está enraizado na própria tecnologia. Devido à sua natureza descentralizada, nenhuma entidade possui inteiramente o Bitcoin. A tecnologia é construída e mantida por aqueles a quem ela serve. Cada membro da comunidade cripto faz parte do jogo. Dos mineiros aos desenvolvedores e adotantes de Bitcoin, sempre foi necessário se unir para manter a tecnologia funcionando. A natureza do token, também, afetou a forma como a notícia sobre a tecnologia se espalhou. O próprio Bitcoin nunca teve nenhum orçamento de marketing. Tudo foi feito pelo “boca a boca”, seja online, em fóruns e redes sociais, ou off-line, em encontros liderados pela comunidade.
As comunidades são ecossistemas de vital importância. Satoshi Nakamoto, criador da moeda, viu o quão importante seria o senso de comunidade desde o início. Ele construiu uma comunidade cripto em 2009, o Fórum BitcoinTalk, postando a primeira mensagem naquele mesmo ano, sob o pseudônimo de "satoshi". Desde então, percebe-se o quanto as criptos são dependentes de uma comunidade engajada. Em parte, porque os protocolos criptos têm sua própria linguagem.
Até por isso, um slogan popular para os nativos criptos se tornou WAGMI, que é a sigla de "todos nós vamos conseguir" (We Are All Gonna Make It). Isso se refere à ideia de que qualquer um pode alcançar a independência financeira, por meio das criptomoedas. Partindo do estudo de Asaf Nissenbaum, doutor da Universidade Hebraica de Jerusalém, que publicou pesquisas acadêmicas sobre memes on-line, podemos classificar os usuários de cripto como uma comunidade composta por pessoas jovens e nerds. WAGMI, no caso, incorpora a alegação de que ser um membro autêntico e informado da cultura cripto possibilita que "todos nós vamos conseguir".
Projetos de todos os setores criptos necessitam de uma comunidade ativa para poderem prosperar. Redes de primeira e segunda camada precisam atrair uma grande quantidade de desenvolvedores, a fim de conseguir gerar tração ao ponto de atrair milhões de usuários. O mesmo ocorre com outras aplicações, como os protocolos DeFi. Mas os setores que mais sentiram o peso da comunidade foram os NFTs e o GameFi. Ambos precisam de uma comunidade engajada para se manterem ativos e relevantes por um longo período de tempo. Enquanto projetos sérios demandam uma comunidade forte para se manterem ativos, surgiram tokens que não precisam de nada, com exceção da sua capacidade memética e da comunidade em seu entorno, para alcançarem um grande mercado.
Ainda em 2013, nasceu a moeda meme Dogecoin (DOGE), a mais proeminente até agora. Ela foi criada pelos engenheiros de software Billy Markus e Jackson Palmer. O nome da cripto vem de um popular meme do mercado que trazia o cão "Doge", da raça Shiba Inu. Para os fundadores, o token é uma forma de zombar do Bitcoin (BTC) e seu nome vem com um erro de grafia (em inglês, a palavra para cão é “dog”). Mas a brincadeira acabou alcançando uma comunidade fervorosa de usuários e, aos poucos, acumulou status de quase culto. Um exemplo do impacto dela ocorreu em 2014, quando a equipe jamaicana de trenó se classificou para os Jogos Olímpicos de Inverno daquele ano em Sochi, na Rússia, mas não conseguiu financiar a viagem. Nesse momento, a comunidade da Dogecoin se uniu para arrecadar cerca de US$ 30 mil e financiou a ida dos atletas aos jogos. A história virou notícia nos meios de comunicação e acabou atraindo mais investidores para a moeda. Atualmente, a Dogecoin está no top 10 de projetos com as maiores capitalizações de mercado, com quase US$ 8 bilhões.
A história da Dogecoin fez com que surgissem outras moedas memes que, ao longo do tempo, alcançaram um mercado multibilionário e, muitas vezes, receberam o endosso de celebridades. Embora essas características deem a impressão de que as moedas meme possam gerar alguma utilidade ou valor subjacente, a verdade é que quase todas elas não têm valor fundamental e nenhum caso de uso exclusivo. Em vez disso, os investidores geralmente compram moedas meme para fazer parte de uma comunidade e, também, para se divertirem. Essa lógica aponta que o único caso de uso para a maioria das moedas meme é a pura especulação. Mesmo assim, elas não possuem um processo de criação diferente de qualquer outra criptomoeda, como Bitcoin ou Ethereum. A grande diferença é que sua existência tende a ser centrada em torno de um momento viral ou de uma ideia engraçada e seu valor depende, em grande parte, de quanto impulso esse conceito pode gerar perante a sua comunidade.
Em 2021, as moedas memes tiveram um grande impacto no mundo cripto. Isso ocorreu quando a empresa de investimentos Melvin Capital assumiu posições de venda a descoberto das ações da GameStop. A GameStop é uma tradicional loja de venda de jogos e acessórios para games, com filiais espalhadas por todo os EUA. A posição da Melvin Capital buscava refletir a visão pessimista que eles tinham da empresa de varejo de jogos. Mas o tiro acabou saindo pela culatra. Sob a liderança de varejistas, os membros do subreddit r/WallStreetBets passaram a investir na ação da GME para derrotar os gigantes da Wall Street. Isso levou ao crescimento explosivo das ações e causou enormes perdas à empresa de investimento. Depois disso, o subreddit r/SatoshiStreetBets decidiu avançar para o mercado de criptomoedas e a Doge foi escolhida para replicar o aumento no preço das ações da GME.
Ao mesmo tempo que isso ocorria, celebridades passavam a entrar no jogo. Elon Musk começou a tuitar sobre a Doge. Isso fez com que a mídia desse atenção ao token. Entretanto, esse não era o primeiro tuíte de Elon a respeito. Em 2019, ele foi eleito CEO pela comunidade da Dogecoin. A votação simbólica ocorreu por meio de uma pesquisa no Twitter. Em maio de 2021, o fundador da SpaceX passou a aceitar Doge nas vendas dos veículos elétricos Tesla. Isso fez o preço dos tokens dispararem.

Figura 83 - Elon Musk apoia a Doge

Fonte: https://twitter.com/elonmusk
Fonte: https://twitter.com/elonmusk
Os endossos de Elon Musk à Dogecoin criaram uma onda. Mark Cuban, proprietário do Dallas Mavericks, passou a aceitar Doge para venda de ingressos do time. O aumento da Dogecoin levou ao surgimento de várias moedas de meme com tema de cachorro, como Akita e Shib. Essas criptomoedas se tornaram populares entre a comunidade chinesa, onde foram listadas nas principais bolsas de criptografia, como a OKEx. Apesar do hype no mercado, as moedas de meme, como a Doge, são extremamente voláteis, já que dependem unicamente da influência e engajamento de sua comunidade. Então, qualquer notícia pode alterar rapidamente os preços desses tokens. Embora as moedas meme sejam quase inevitáveis nas discussões sobre criptografia, muitas pessoas atribuem sua adoção à baixa barreira de preço para entrada e ao hype feito pelas comunidades.
  1. 1.
    SOBANDE, Francesca. Memes, digital remix culture and (re)mediating British politics and public life. IPPR Progressive Review, v. 26, 2019, p. 151-160. ↑
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
as nossas vidas.
Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro