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1. Bitcoin e o início do dinheiro virtual

Foi na lista de discussões Cypherpunks que o termo criptomoeda surgiu pela primeira vez. Isso ocorreu em 1988, quando Wei Dai (pseudônimo) publicou um manifesto, o qual idealizava uma rede de pagamentos que não precisasse de um órgão central para controlá-la.
A DigiCash foi a primeira moeda virtual mundial, criada em 1989, por David Chaum. O projeto faliu em 1998, menos de dez anos depois da sua criação. Após, surgiu o BitGold, uma invenção de Nick Szabo, que acabou sendo uma moeda precursora do Bitcoin, por apresentar uma solução parecida com a blockchain.
Já comentamos que as criptomoedas permitem trocas de valores criptografadas sem envolvimento de nenhuma entidade governamental ou institucional, descentralizando as transações. Isso permite que todas as transações possam ser verificadas por meio de um livro razão público e aberto a todos. Ou seja, computadores de usuários comuns, sem interferência de entidades, de todas as partes do mundo, conectados por meio de uma rede, que funciona de modo descentralizado, trocam informações entre si. Esse livro razão, chamado de blockchain, faz com que as criptomoedas não precisem de um órgão centralizador que verifique, cheque ou garanta a veracidade das transações. Logo, toda a oferta e a distribuição são feitas pelo código-fonte (sistema) da moeda em questão, sendo esta uma das principais diferenças do sistema bancário convencional.
A primeira menção ao Bitcoin apareceu em 31 de outubro de 2008, quando seu whitepaper foi publicado em um fórum. O documento, criado por um ou mais indivíduos que se intitulam Satoshi Nakamoto, descreve um novo sistema financeiro que propõe uma nova moeda, chamada de Bitcoin. Depois que Satoshi publicou sua proposta de oito páginas para esse novo sistema de pagamento digital, eles abriram o projeto para discussão e debate em um grupo online de entusiastas de criptografia, cientistas da computação e veteranos da indústria de dinheiro digital. Desde os primeiros dias, o Bitcoin foi um projeto de software de código aberto, construído e mantido por uma comunidade de desenvolvedores e entusiastas. Em 8 de novembro de 2008, o Bitcoin foi registrado na plataforma de desenvolvimento de software de código aberto SourceForge, tornando-se um projeto de equipe.
É preciso levar em consideração o fato de que o Bitcoin foi o responsável por trazer do mundo físico ao mundo digital a escassez dos ativos. Até a criação dessa moeda virtual, tudo que era digital não era escasso. Tal como as músicas em MP3, as imagens nos formatos JPEG, e todos os elementos que podiam ser copiados e compartilhados sem que o detentor do arquivo original perdesse a sua versão.
Formas rudimentares de gerar escassez em arquivos digitais até foram tentadas. A Microsoft, por exemplo, ao enviar para o consumidor a cópia do seu novo pacote Office, mandava junto um número de série para tentar evitar cópias.
O Bitcoin, por outro lado, cria o instrumento necessário para que a escassez possa ser, de fato, aplicada no mundo digital. De forma simples, se você transfere um bitcoin para outro indivíduo, você não consegue copiá-lo. O mesmo acontece com o token, ao transferi-lo você deixa de possuí-lo. Isso torna possível o dinheiro virtual, já que ele não pode mais ser duplicado.
No dia 3 de janeiro de 2009, o bloco Genesis iniciou a rede Bitcoin. Com isso, começou a primeira rede de pagamento descentralizada do mundo. O bloco Genesis (ou bloco zero) do Bitcoin foi extraído por Satoshi. No bloco, foi colocada a seguinte mensagem: “The Times 03/jan/2009 Chanceler à beira do segundo resgate para os bancos”. Esta mensagem foi um sinal claro das intenções do Bitcoin. Como o mundo estava passando pela maior crise financeira desde a Grande Depressão, o token apresentava uma nova visão para um sistema monetário separado e sem o controle do Estado. Em 12 de janeiro de 2009, a primeira transação Bitcoin pós-gênese ocorreu entre Satoshi e o ativista de criptografia Finney, no bloco 170. Finney também foi a primeira pessoa a minerar Bitcoin ao lado de Satoshi, após o lançamento da rede.

Figura 1 - Bloco Gênesis do Bitcoin

Fonte: Blockchain.com
De acordo com o whitepaper da cripto, a ideia da rede Bitcoin é ser “um sistema eletrônico de pagamento criptográfico e com a validação das informações feita pelo mecanismo intitulado: ‘Prova de trabalho’ (PoW), permitindo que duas partes façam transações diretamente entre elas sem a necessidade de uma terceira parte ‘confiável’”. Levando isso em consideração, toda e qualquer transação que ocorre no Bitcoin é registrada em uma espécie de livro caixa público e transparente, a blockchain, como já vimos. Desse modo, a blockchain nada mais é do que um grande banco de dados público, contendo todo o histórico de transações de determinada criptomoeda.

1.1 Quantidade máxima de BTCs e o processo de halving

O Bitcoin (BTC) possui um supply máximo de 21 milhões. Ou seja, após colocar essa quantidade de tokens em circulaão, não serão emitidos mais BTCs. Até agosto de 2022, os dados da Blockchain.com mostram que o Bitcoin atingiu a circulação de 19,09 milhões, o que significa que há menos de 10% do suprimento total para ser minerado. Mesmo assim, esse processo deve demorar. Enquanto os primeiros 90% do BTC foram minerados em cerca de 12 anos, o resto irá demorar mais 118 anos para ser concluído, devido ao aumento da dificuldade de cálculo no processo de mineração. O Bitcoin tem um limite escrito no seu código-fonte e não pode ser mudado de forma alguma. Esse limite máximo é fundamental para sua proposta de valor como moeda e ferramenta de investimento.
Uma vez que a blockchain do Bitcoin cria uma quantidade X de novos BTCs como recompensa para os mineradores que verificam novos blocos (você pode conferir mais sobre isso no capítulo 5), a redução cai pela metade a cada 210 mil novos blocos, em um processo conhecido como halving. Isso representa cerca de quatro anos e garante que menos bitcoins sejam produzidos à medida que o suprimento circulante total do token aumente.
Desde maio de 2020, os mineradores ganham 6,25 Bitcoin para cada novo bloco verificado. Essa taxa irá diminuir para 3,125 BTC por bloco na próxima metade, em 2024. Em 2040, a recompensa do bloco terá sido reduzida para menos de 0,2 BTC e apenas 80 mil Bitcoins de 21 milhões faltarão para serem minerados.

Figura 2 - O halving do Bitcoin

Fonte: viden.vc
Ou seja, como a taxa de produção de novos Bitcoins está sendo cortada pela metade a cada quatro anos, somente em 2140 esse processo estará finalizado.

1.2 O que torna o BTC único e por que isso importa

Mas quais são os fundamentos que tornam o Bitcoin tão revolucionário?
Algumas das características que tornaram o Bitcoin único no momento do seu surgimento foram: 1) o token funciona como dinheiro digital; 2) é altamente portátil, divisível e fungível; 3) funciona como um sistema peer-to-peer; 4) tem um livro razão (blockchain) descentralizado, transparente e de código aberto; e 5) possui uma política monetária claramente definida. Vejamos cada um desses pontos em detalhes.
1) O Bitcoin funciona como um dinheiro digital. E sendo uma moeda digital ela se torna importante porque significa que o dinheiro que usamos pode ser facilmente programado para fazer coisas personalizáveis. O dinheiro fiduciário nas contas bancárias não é transparente, não há livro razão que possibilite a checagem das ações feitas com ele por qualquer indivíduo que o possua. Como não há um livro razão referenciando o dinheiro armazenado em diferentes contas bancárias, o que dificulta a programação do dinheiro para seguir certas regras. Com o Bitcoin, existe a blockchain, local onde já são pré-estabelecidas as regras para programar depósitos, pagamentos, dividendos, entre outras ações.
2) O Bitcoin é fungível, ou seja, qualquer uma das suas moedas pode ser substituível por outra, pelo mesmo valor. Enquanto isso, o BTC é uma moeda durável justamente porque não pode ser destruída facilmente, como o papel moeda. Podemos falar que qualquer um que mantenha as chaves privadas da sua carteira, onde estão armazenados os seus Bitcoins, estará seguro. Por fim, o Bitcoin também é facilmente divisível, sendo possível fragmentá-lo em pequenas partes.
3) O BTC foca na facilitação das formas de pagamento. Pelo método tradicional do sistema financeiro, se um indivíduo deseja fazer um pagamento de forma segura, ele precisa de uma série de intermediários e de instituições financeiras terceirizadas para realizar a operação. O sistema possui muita burocracia e é ineficiente. No geral, todos os intermediários cobram taxas, o que encarece a transação. Usando a rede Bitcoin, um indivíduo pode enviar dinheiro para outro sem nenhum tipo de intermediário, por meio do "peer-to-peer". Sem depender de banco, os usuários passam a ter controle ou autoridade sobre qualquer transação financeira. O Bitcoin dá total controle sobre os ativos. Com esse controle, ninguém pode mexer no nosso dinheiro sem permissão.
4) O Bitcoin é um software de código aberto. De forma geral, o código aberto pode ser inspecionado por todos. Qualquer um pode conferi-lo e sugerir melhorias na comunidade do Bitcoin, já que ele é descentralizado e distribuído globalmente. Essas sugestões de melhorias, caso aceitas pela comunidade, são implementadas após deliberação e testes. Assim, ninguém pode adulterar o código ou manipulá-lo sem o consenso geral da comunidade. Isso faz com que ninguém consiga controlar totalmente o Bitcoin, nem mesmo governos ou entidades.
5) O Bitcoin é, de fato, uma moeda descentralizada, ao contrário da moeda fiduciária que sempre tem o controle de uma autoridade centralizada, geralmente representada por um banco central. Os bancos centrais, por exemplo, têm a capacidade de emitir dinheiro novo à vontade. Isso vai na contramão do que é o Bitcoin.
Dito tudo isso, quais são as razões que tornam o Bitcoin algo único e que importa aos indivíduos? Marc Andreessen, fundador da Netscape e conhecido por ser um dos sócios da a16z, apontou as razões ao falar sobre o BTC em 2014. Segundo ele:
Uma nova tecnologia misteriosa surge, aparentemente do nada, mas na verdade o resultado de duas décadas de intensa pesquisa e desenvolvimento por pesquisadores quase anônimos. Os idealistas políticos projetam nele visões de libertação e revolução; elites do establishment acumulam desprezo e escárnio por ele. Por outro lado, os tecnólogos – os nerds – ficam paralisados ​​por ele. Eles vêem um enorme potencial e passam suas noites e fins de semana mexendo nele. Eventualmente produtos, empresas e indústrias convencionais surgem para comercializá-lo; seus efeitos tornam-se profundos; e mais tarde, muitas pessoas se perguntam porque sua poderosa promessa não era mais óbvia desde o início. De que tecnologia estou falando? Computadores pessoais em 1975, a Internet em 1993 e – acredito – Bitcoin em 2014… A consequência prática de resolver esse problema é que o Bitcoin nos dá, pela primeira vez, uma maneira de um usuário da Internet transferir uma propriedade digital única para outro usuário da Internet, de modo que a transferência seja garantida e segura, todos saibam que a transferência ocorreu e ninguém possa contestar a legitimidade da transferência. As consequências desse avanço são difíceis de exagerar. Que tipos de propriedade digital podem ser transferidas dessa maneira? Pense em assinaturas digitais, contratos digitais, chaves digitais (para fechaduras físicas ou para armários online), propriedade digital de ativos físicos, como carros e casas, ações e títulos digitais… e dinheiro digital (ANDREESEN, 2014, s/p).

1.3 Pizza, Silk Road e o caso de El Salvador: os usos do BTC como forma de pagamento

Antes da invenção do Bitcoin, as transações online (entre duas partes) necessitavam de três pontos de ligação. Por exemplo: a pessoa A queria enviar dinheiro para a pessoa B. Para tal, tanto a pessoa A quanto a pessoa B precisavam do serviço de um terceiro agente confiável, um intermediário, identificado aqui como C. Tal agente seria o responsável por debitar da conta da pessoa A a quantia que esta desejava enviar para a pessoa B e creditar essa mesma quantia na conta da pessoa B. Esse processo, claro, envolve taxas.

Figura 3 - A diferença entre as transações centralizadas e as descentralizadas

Fonte: viden.vc
Nota-se que, sem o intermediário, seria impossível evitar o clássico problema do “gasto duplo”.
Quem garantiria que a pessoa A debitaria a quantia combinada de sua conta? Como seria feito o crédito na conta da pessoa B? Por isso, sempre foi necessário um intermediador das transações que mantivesse um registro com todo o histórico das transações e, assim, permitisse sempre o correto endereçamento das movimentações, visando evitar o gasto duplo.
O Bitcoin surge eliminando o intermediário do processo, já que todos os validadores carregam consigo um registro histórico de todas as transações já realizadas no sistema Bitcoin, com a possibilidade de qualquer usuário acessar esse registro. Além disso, cada nova transação precisa ser aprovada e registrada por todo o sistema para, somente então, ser dada como válida. É como se cada usuário possuísse acesso ao livro razão com todas as trocas já realizadas pelo Bitcoin. Cada bitcoin enviado de um lugar para outro por um usuário, o horário, a quantia, entre outras informações, ficam armazenadas nos computadores dos validadores da rede. Mais uma vez, esse arquivo é chamado de blockchain. Todas as movimentações de unidades bitcoin dentro do sistema possuem suas autenticidades conferidas nos registros da blockchain, a fim de assegurar que não exista gasto duplo. É esse um dos pontos que torna o Bitcoin revolucionário. Ele torna possíveis transações diretas de A para B sem intermediários e com um custo muitíssimo reduzido quando comparado aos serviços bancários ou aos serviços de envio de dinheiro entre países.
O primeiro uso registrado de Bitcoin como meio de pagamento por um bem ou serviço ocorreu em 22 de maio de 2010, quando Laszlo Hanyecz, um programador da Flórida, pagou 10 mil BTCs por duas pizzas. A taxa de câmbio inicial do Bitcoin só havia sido estabelecida alguns meses antes. O preço das duas pizzas, tamanho grande, do Papa John, foi estimado em cerca de US$ 25 no momento da compra. Se levarmos em consideração o valor atual do Bitcoin, em 20 de julho de 2022, seria como se o preço das duas pizzas fosse de US$ 476 milhões.
No discurso em torno do uso do Bitcoin como meio de pagamento, a famosa transação de Hanyecz é frequentemente levantada como um exemplo de contradição do histórico de preços do Bitcoin e do seu uso eficaz como método de pagamento. Com uma oferta escassa, limitada a 21 milhões de BTCs, as pessoas podem não querer usá-lo como dinheiro, mas sim como reserva de valor. No entanto, a compra pioneira de Hanyecz provou que o Bitcoin poderia ser usado como um sistema de transações digitais P2P.
Fora a prosaica compra das pizzas com BTC, nenhuma história do Bitcoin estaria completa sem menções ao site Silk Road. Lançado em fevereiro de 2011 por Ross Ulbricht, que usou o pseudônimo "Dread Pirate Roberts" (em homenagem a um personagem do filme The Princess Bride), Silk Road era um mercado da darknet acessível apenas por meio do serviço de navegação anônima Tor. O site tinha o Bitcoin como forma de pagamento.
O local foi concebido como um mercado livre e aberto, onde as pessoas poderiam fazer transações livremente umas com as outras, fora das restrições de regulamentação dos governos. Além de ser um mercado, o site também tinha um fórum no qual os usuários podiam discutir o que quisessem. As discussões que mais tinham espaço eram sobre libertarianismo, criptoanarquismo e visões dissidentes. Um dos elementos de sucesso do site era seu sistema de reputação e de custódia automatizado para reduzir fraudes.
Depois que o local se tornou um paraíso para o comércio ilegal de drogas e outros tipos de comércio criminoso, as autoridades policiais federais começaram a investigar suas operações, culminando na prisão de Ulbricht em 2 de outubro de 2013. Ele agora está cumprindo várias sentenças de prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional. Mesmo assim, de dentro da prisão, no fim de 2021, Ulbricht vendeu um NFT da sua coleção por US$ 6,2 milhões.
A Silk Road é um momento-chave na história do Bitcoin. A narrativa do Bitcoin como moeda escolhida para pagamentos de atividades criminosas decorre de casos como o visto nesse marketplace. O que se pretendia como uma expressão do idealismo libertário em torno da liberdade pessoal e dos mercados livres, tornou-se o mercado ilegal mais lendário da era moderna. É importante notar que o governo dos Estados Unidos leiloou mais de 44 mil BTCs, os quais haviam sido apreendidos durante a prisão de Ulbricht, proporcionando crédito à legalidade básica do Bitcoin. Apesar da virada sombria na história da Silk Road, o mercado exibiu a capacidade do Bitcoin de facilitar o comércio P2P em um mercado aberto.
Infelizmente, os bens e serviços legais disponíveis na Silk Road – que iam da arte ao vestuário e ao artesanato – compunham um volume muito menor da atividade do mercado.
Em todo caso, se, de um lado, a Silk Road foi um ponto de inflexão negativo para o Bitcoin, o uso da moeda em El Salvador, país da América Central, por outro, tornou-se a primeira tentativa de uso sistemático e legal da criptomoeda no dia a dia das pessoas.
Em junho de 2021, o então presidente de El Salvador, Nayid Bukele, surpreendeu ao aparecer na Conferência Bitcoin 2021, realizada em Miami (EUA), anunciando que o país iria aceitar o Bitcoin como uma moeda legal. O anúncio surpreendeu o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI), mas agradou a comunidade do BTC pelo mundo. Dois meses após o anúncio, em setembro, Bukele levou uma lei ao parlamento transformando o país em um teste da viabilidade da moeda como método de pagamento. A lei foi aprovada e o BTC tornou-se, ao lado do dólar americano, uma moeda legal. Para facilitar a adoção da criptomoeda no país, o presidente de El Salvador lançou uma carteira digital em forma de aplicativo, chamada Chivo. Assim, o cidadão do país encontrava uma carteira pré-carregada com US$ 30 de bitcoin.
Atualmente, no país, todos os comércios que possuem a tecnologia adequada precisam aceitar o Bitcoin em seus negócios. El Salvador é o país no qual mais de 70% da população não tem acesso à conta bancária. Isso significa que as pessoas não têm acesso a transações de pagamentos nacionais e nem internacionais. Por isso, a inclusão do dinheiro digital pode ser uma excelente alternativa para a inclusão social, embora as evidências iniciais não apontem nessa direção. Outra razão é o fato de que há o equivalente a um terço da população salvadorenha vivendo e trabalhando nos EUA e no Canadá, e todos os meses eles enviam dinheiro para os seus parentes sem contas bancárias. Em 2022, para realizar essa transferência, eles utilizam provedores de serviços financeiros caros, que cobram até 20% do valor transacionado. Nesse ponto, o BTC surge como uma melhor alternativa.
Além de tornar o BTC uma moeda legal, o governo de Bukele também passou a comprar e holdar (termo usado para segurar/guardar) Bitcoin. Assim, ao longo de 2021 e 2022 (até julho), o governo de El Salvador havia adquirido 2.301 BTCs, que valiam pouco mais de US$ 52 milhões, o que deixava o país em um prejuízo de cerca de 50% em agosto de 2022, considerando o preço médio de US$ 45,171 mil por unidade. Mesmo assim, o país latino americano prevê lançar nos próximos anos títulos do governo atrelados ao Bitcoin e um enorme centro de tecnologia e produção de energia a partir de vulcões, o qual será utilizado para minerar Bitcoin.

1.4 O nascimento da indústria de mineração e a mudança na administração da criptomoeda

Nos primeiros dias da economia do Bitcoin, as pessoas que participavam da rede e o obtinham faziam isso por meio da mineração. A mineração é o processo de checagem da veracidade das transações solicitadas e do registro das mesmas em novos blocos da blockchain, produzindo um histórico criptograficamente seguro e verificável de transações ao longo do tempo.
A rede Bitcoin foi projetada de forma que os mineradores sejam recompensados em Bitcoin por garantir o tempo de atividade da rede. Isso também serve como processo de cunhagem da moeda.
Em 27 de novembro de 2010, foi lançado o Slush Pool, o pool de mineração mais antigo da indústria de Bitcoin, que forneceu aos futuros mineradores um meio de reunir recursos computacionais para minerar o Bitcoin e compartilhar as recompensas de bloco proporcionais ao trabalho realizado. Isso permitiu que indivíduos sem energia abundante de CPU participassem coletivamente das operações da rede e ganhassem tokens no processo.
Desde então, a indústria de mineração tornou-se uma operação comercial em larga escala e intensiva em energia, com um número relativamente pequeno de empresas produzindo a maior parte do poder de hash. Embora o escopo da mineração de criptomoedas tenha mudado consideravelmente com o surgimento de muitas outras criptomoedas, o Slush Pool foi um marco importante na história e na maturação da rede Bitcoin.
Em 26 de abril de 2011, Satoshi deixou o projeto Bitcoin, entregando as rédeas do desenvolvimento a Gavin Andresen e à comunidade de código aberto. Até esse ponto, o desenvolvimento do Bitcoin tinha sido basicamente liderado por Satoshi, quem quer que ele tenha sido. Em retrospecto, o anonimato do inventor foi fundamental para o sucesso, a persistência do Bitcoin e para que a criptomoeda permanecesse fiel à sua fundação como um sistema financeiro minimizado, confiável, descentralizado e resiliente.

Figura 4 - A história do BTC

Fonte: viden.vc
Fonte: viden.vc
Fonte: viden.vc

1.5 Quem é Satoshi Nakamoto?

O criador do Bitcoin se chama Satoshi Nakamoto. Embora o nome seja amplamente conhecido, ninguém, de verdade, sabe quem ele é. Podem ser vários indivíduos, uma organização ou até mesmo um único sujeito. Porém, não há certeza sobre isso. O que sabemos com clareza é que Satoshi não queria ser identificado. Por isso, tomou ações com o foco exclusivo de preservar sua privacidade. No geral, isso aponta que quem é Satoshi não importa, pois os códigos do Bitcoin são abertos. Qualquer um pode estudá-los. O criador não possui controle sobre a rede e, por esse motivo, seu paradeiro não é relevante.
Mesmo assim, é natural, após mais de uma década de existência e centenas de bilhões de dólares circulando, que a origem do criador gere interesse. Também podemos apontar que a lenda em torno da real identidade de Satoshi Nakamoto é um dos elementos auxiliares da mística do BTC. Assim, ao longo da última década, várias tentativas de identificá-lo foram realizadas. E, como veremos, Satoshi deixou alguns rastros que permitem ter alguns indicativos da sua identidade.
Entre 2009 e 2010, Satoshi minerou cerca de 1 milhão de bitcoins, segundo Sergio Lerner. Mesmo tendo à sua disposição valores que hoje valem bilhões de dólares, esses tokens nunca foram tocados, com exceção da primeira transação feita na história do BTC, quando Satoshi enviou tokens para Hal Finney. Além disso, para não ser reconhecido, Satoshi usou servidores de e-mail anônimos, Tor e nunca revelou diretamente nenhuma informação pessoal.

Figura 5 - Resposta de Hal Finney ao lançamento do Bitcoin

1ª resposta pública ao lançamento do Bitcoin v0.1 por Satoshi, escrita por Hal Finney.
Tradução do conteúdo: Como um divertido experimento mental, imagine que o Bitcoin seja bem-sucedido e se torne o sistema de pagamento dominante em uso em todo o mundo. Então o valor total da moeda deve ser igual ao valor total de toda a riqueza do mundo. As estimativas atuais da riqueza total das famílias em todo o mundo que encontrei variam de US$ 100 trilhões a US$ 300 trilhões. Com 20 milhões de moedas, isso dá a cada moeda um valor de cerca de US$ 10 milhões.
Portanto, a possibilidade de gerar moedas hoje, com alguns centavos de tempo de computação pode ser uma boa aposta, com um retorno de algo como 100 milhões para 1! Mesmo que as chances de o Bitcoin ter sucesso nos degraus sejam pequenas, elas são realmente 100 milhões contra um? Algo a se pensar...
Hal
Isso, claro, não impediu que os mais ávidos entusiastas juntassem peças e chegassem a uma lista de nomes que poderiam indicar quem era Satoshi. Entre os principais nomes, estão: Adam Back, Adam Shostack, Ben Laurie, Bram Cohen, David Chaum, Ian Goldberg, Ian Grigg, Len Sassaman, Jim McCoy, John Gilmore, Nick Szabo, Paul Kocher, Stefan Brands, Steve Schear, Ryan Lackey, Zooko, Wei Dai, entre outros.
Para muitos, o Bitcoin nasceu das seções de comentários do blog Enumerated, que era mantido por Nick Szabo. Os posts Nanobarter, BitGold e Bitgold Markets seriam os principais textos com indicativos do que viria a ser o BTC. Nos três posts de 2007, é possível identificar uma discussão entre Jim McCoy, Szabo e Zooko que remetem aos pilares do que é dito no whitepaper do BTC. Embora os três sejam vistos como potenciais Nakamoto, são os dois primeiros que concentram mais suspeitas. Szabo trabalhava com a ideia de dinheiro digital descentralizado desde 1998. Meses antes do lançamento do BTC, estava buscando alguém que pudesse auxiliar na implementação de uma ideia nova. Além disso, ele alterou a data de artigos de 2005 sobre o BitGold, fazendo com que eles parecessem ter sido publicados após o surgimento do BTC.
Além disso, análises estilográficas apontam a escrita de Szabo e de Nakamoto como idênticas. Alguns acreditam, inclusive, que Szabo teria contratado Hal Finney para implementar sua ideia. Assim, o código teria sido escrito por este, enquanto Szabo seria o responsável pelo whitepaper. Por sua vez, embora pouco conhecido, Jim McCoy, que participou das discussões do blog de Szabo, tinha a experiência necessária para construir o código do Bitcoin e abriu um hiato em sua carreira justamente durante a concepção do token.
Com o passar do tempo, surgiram pessoas reivindicando ser Nakamoto. O australiano Craig Wright forjou evidências para alegar isso, mas foi processado por Dave Kleiman, um cientista que abriu uma empresa para minerar bitcoin em 2011. Após isso, Kleiman também passou a ser cotado como o criador da moeda. Ele morreu em 2013 de uma doença degenerativa. Mas outros nomes associados à criação do token continuam trabalhando. Outros 11 nomes poderiam ser ou tiveram relação direta com Satoshi, segundo Nermin Hajdarbegovic, da plataforma CoinDesk. Já o infográfico de Ofir Beigel, da 99Bitcoins, inclui nove nomes ou organizações que poderiam ser o pai do Bitcoin.

1.6 Os problemas de escalabilidade do BTC

Mesmo sendo a criptomoeda de maior capitalização de mercado, o Bitcoin possui vários problemas. Os maiores exemplos são os que envolvem a escalabilidade e que impedem o token de se tornar um sistema global de pagamento viável. Mesmo com esses desafios, ao longo dos anos alguns deles foram resolvidos e/ou receberam atualizações que melhoraram o desempenho da rede.
A dificuldade de aumentar a escalabilidade do Bitcoin é um dos principais tópicos de discussão da moeda. Atualmente, a rede BTC consegue fazer sete transações por segundo, número que não se compara às 24 mil transações que a Visa pode receber por segundo. As duas soluções planejadas para resolver esse problema foram a Segregated Witness (SegWit) e a Lightning Network (LN).
A SegWit buscou diminuir o tamanho do arquivo de cada transação feita na rede, tirando as assinaturas digitais da blockchain do BTC. Essa remoção não afetaria a transação, pois o efeito de cada transação é determinado pela saída, quantidade e local de gasto. A assinatura digital é necessária apenas para validar a transação na blockchain, mas não para determiná-la, ocupando cerca de 60% do espaço. A redução no bloco permitiu mais transações por segundo. Assim, em 24 de agosto de 2017, a SegWit foi incluída no protocolo do Bitcoin como um soft-fork e a taxa de transferência aumentou de três para sete transações por segundo.
A última atualização adicionada ao Bitcoin foi a Taproot. Ela aumenta a fungibilidade do Bitcoin, a funcionalidade dos smart contracts e aumenta a privacidade dos usuários. Tudo isso fazendo com que as transações pareçam iguais para os observadores de blockchain. Além disso, a agregação de várias chaves privadas em uma “chave mestra”, a fim de realizar transações, reduziu as taxas e diminuiu os custos de operação do nó, ambos vitais para a escalabilidade a longo prazo da rede. Essa atualização entrou em vigor em 14 de novembro de 2021.
Por sua vez, ela abriu caminho para a Lightning Network, que funciona como uma segunda camada da rede Bitcoin. A LN processa transações em uma rede separada e as envia juntas à rede principal. Ela permite transações mais rápidas e baratas sem sobrecarregar a camada principal do Bitcoin. Teoricamente, ela poderá lidar com até 1 milhão de transações por segundo, muito à frente das sete transações do Bitcoin por segundo. Os pagamentos da Lightning Network são quase instantâneos e com taxas extremamente baixas. No entanto, por hora, a rede ainda é considerada em desenvolvimento e não está totalmente operacional.
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
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Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro