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Introdução: as criptomoedas vão mudar o mundo

As criptomoedas transformarão a sociedade.
Durante anos, termos como criptografia, blockchain, tokens, entre outros, pareciam ser uma tendência tecnológica fugaz que a maioria das pessoas poderia ignorar com segurança. Mas o poder dessa tecnologia, tanto econômico quanto cultural, tornou-se muito grande para ser deixada de lado.
Segundo o CoinMarketCap, principal site de consulta de preços desse tipo de ativo, o mercado de criptomoedas valia US$ 1 trilhão em setembro de 2022. Isso ocorreu treze anos após um experimento criar uma moeda digital chamada Bitcoin (BTC). Esse ativo surgiu com a função de permitir transações digitais seguras e anônimas, sem o envolvimento do sistema bancário. Mesmo que você não saiba o que é, com certeza já ouviu falar sobre ele.
Em novembro de 2021, o preço de um bitcoin era de US$ 67,5 mil. Um crescimento de mais de 1,6 bilhão por cento, considerando que em 2009 o valor era de cerca de US$ 0,004. Para entender o impacto, imagine que uma pessoa que comprou US$ 1.000 em Bitcoin em 2009 e guardou até o ativo alcançar seu maior preço, acumulou uma fortuna de US$ 16,875 bilhões. Esses ganhos atraíram muitos investidores em todo o mundo. Embora o preço de um bitcoin tenha caído cerca de 65% do seu maior valor histórico (ATH - All time high), passando para a casa dos US$ 23 mil em agosto de 2022, a capitalização de mercado dos bitcoins em circulação era de cerca de US$ 461 bilhões.
Ao se tornar mais conhecida pelo público, a tecnologia cripto também vem gerando um discurso excepcionalmente polarizado. Seus maiores fãs agem como se estivessem salvando o mundo, enquanto seus maiores céticos estão convencidos de que é tudo uma farsa: uma bolha especulativa que destrói o meio ambiente e é orquestrada por vigaristas, que vendem essas moedas para idiotas gananciosos.
Mas o fato é que, atualmente, compreender a tecnologia permissiva das criptomoedas é importante: especialmente se você é um cético sobre elas. Tanto a riqueza quanto a ideologia envolvida na criptografia irão transformar a sociedade nos próximos anos. Independentemente do que o futuro traga, as criptomoedas e as blockchains (tecnologia que está por trás das criptomoedas) são parte de uma onda de novas tecnologias que estão mudando a forma como a internet, a produção e o comércio se organizam. Plataformas digitais, economia compartilhada e aplicativos estão fragmentando a produção e facilitando transações financeiras online entre duas pessoas sem a intermediação de nenhuma instituição ou outro usuário, prática conhecida como peer-to-peer (P2P).
Muitas dessas novas aplicações surgiram logo após a crise financeira global de 2008, quando a falência de empresas estabelecidas convenceu muitas pessoas de que a economia nunca mais seria a mesma. Os investidores estavam à procura de novas oportunidades de investimento. Não foi uma coincidência o surgimento do Bitcoin após a crise financeira, em 2009. A confiança nas instituições financeiras havia se desgastado e o momento era propício para explorar abordagens fundamentalmente diferentes.
A tecnologia blockchain é um passo adiante, ela organiza o fluxo de informações e de transações financeiras sem a necessidade de empresas intermediarem. Se essas tecnologias eliminarão completamente os intermediários ou se novas formas de intermediários ​​surgirão, ainda não se sabe.
As criptomoedas são a primeira – e, portanto, a mais desenvolvida – aplicação da tecnologia blockchain. Elas existem sem bancos centrais e facilitam pagamentos sem instituições financeiras. O sucesso de várias criptomoedas coloca pressão competitiva sobre os métodos de transação dessas instituições.
A cultura online das criptos, louca por memes, pode fazê-la parecer frívola e superficial, mas não é. Essa estratégia dos memes é um artifício que as comunidades mais raízes usam para manterem-se isoladas e expulsarem os leigos que acabam não entendendo o que está acontecendo. As criptomoedas, mesmo as que surgiram de memes, fazem parte de um movimento ideológico robusto e bem financiado, o que tem implicações no futuro político e econômico.
No ambiente cripto, há maximalistas do Bitcoin que acreditam que a criptografia os libertará da tirania do governo; há fãs da Ethereum, segunda maior criptomoeda em valor de mercado, que buscam derrubar os grandes bancos; além de especuladores sem nenhum apego ideológico, que apenas querem lucrar. Essas comunidades, frequentemente, lutam umas com as outras, com ideias muito diferentes sobre o que a tecnologia cripto deveria ser. De todo modo, elas atraem os criadores. No Vale do Silício, engenheiros e executivos estão fugindo em massa de trabalhos confortáveis para se juntarem à corrida do ouro criptográfico.
Pesquisas recentes mostram que mais de 30% dos brasileiros já usaram, de algum modo, criptomoedas. Por sua vez, 20% dos adultos norte-americanos e 36% dos millennials estadunidenses possuem criptomoedas, de acordo com a pesquisa da Morning Consult. Em 2021, o aplicativo da Coinbase, corretora cripto norte-americana, chegou duas vezes ao topo das aplicações mais baixadas da App Store. O crescimento do mercado cripto gerou vastas novas fortunas em velocidade nunca vista antes – a comparação mais próxima é, provavelmente, a descoberta do petróleo no Oriente Médio – e transformou seus maiores vencedores em algumas das pessoas mais ricas do mundo.
Fica fácil entender o impacto que as criptomoedas já possuem no mundo. Mas como está o cenário no Brasil? Em 2021, o país estava entre os cinco países do mundo com maior número de investidores em ativos do mundo cripto. Até aquele momento, eram mais de 10 milhões de brasileiros investindo em criptomoedas. Isso representava cerca de 5% da população brasileira, colocando o país atrás apenas de Índia, EUA, Rússia e Nigéria na adoção de criptoativos em números brutos. Um panorama do uso de criptomoedas no planeta em 2021 pode ser visto no gráfico a seguir:

Quadro 1 - Países com o maior número de usuários de criptomoedas do mundo em 2021

Fonte: BrookerChooser
Embora a grande maioria dos investidores desconheça ou olhe com desconfiança para as criptomoedas, o mercado vem crescendo exponencialmente. Como comparativo, ele já supera, e com folga, o mercado de ações no Brasil, que tem cerca de cinco milhões de investidores na Bolsa de Valores. O número de usuários, entretanto, ainda não acompanha a quantidade de dinheiro que está no mercado. Em termos financeiros, o Brasil representa apenas uma pequena participação: cerca de 2% do total do mercado mundial, que foi de US$ 2,9 trilhões em 2021, segundo dados do Coinmarketcap.
Ao aprender algumas noções básicas de criptografia, um mundo inteiro pode se abrir para quem o estuda. Entende-se o porquê do jogador de futebol Neymar e o apresentador de TV norte-americano, Jimmy Fallon, mudarem seus avatares nas redes sociais para desenhos animados de macacos e o motivo de Elon Musk, o homem mais rico do mundo, passar uma parte de 2021 twittando sobre uma moeda digital com nome de um cachorro: a Dogecoin.
Embora possua muita volatilidade e especulação, o mercado cripto não é somente isso. Existe muito desenvolvimento em tecnologia, o que naturalmente atrai recursos para o seu crescimento. É isso que fez a a16z, um dos principais fundos focados em tecnologia do mundo, criar um fundo de US$ 4,5 bilhões e a Northzone, empresa de capital de risco do Reino Unido, criar outro fundo de US$ 1 bilhão, ambos focados no setor cripto.
Vistos os investimentos feitos no setor cripto e sabendo que a tecnologia blockchain pode ser definida como uma base de dados compartilhada e descentralizada, a qual permite que diversos agentes acessem, verifiquem e contribuam com as informações ali presentes em tempo real, nos perguntamos: como ela está impactando e pode futuramente impactar o mundo?
Embora sua primeira representação amplamente aceita tenha sido as criptomoedas, essa é apenas uma das inúmeras atribuições que a tecnologia pode oferecer para melhorar os sistemas já estabelecidos na nossa sociedade. São inúmeros exemplos, entre eles: o setor público, a saúde e a assistência médica, o entretenimento, o mercado imobiliário e o de supply chain. Lembrando que a implementação da tecnologia pode ser feita por meio de blockchains já existentes, como a da rede Ethereum, ou por intermédio da criação de blockchains privadas, feitas para um fim específico.
O mercado imobiliário é a maior classe de ativos do mundo em valor. Hoje, ele é muito burocrático e envolve diversos intermediários que dificultam as transações de compra, venda e financiamento de propriedades, como os agentes estatais, cartórios, corretoras imobiliárias, bancos, entre outros. As bases de dados dessas instituições são diferentes umas das outras e essa comunicação leva tempo, além de possuir diversos custos implícitos.
A tecnologia blockchain pode substituir essa burocracia, permitindo que todo o processo seja simplificado, tornando as transações de imóveis mais rápidas e seguras, por um custo muito menor. A tokenização dos ativos, processo de transformar ativos físicos ou produtos financeiros tradicionais em ativos digitais para facilitar a negociação entre pessoas e empresas, é um dos exemplos de implementação dessa tecnologia no setor, o que proporciona maior facilidade no fracionamento de imóveis, gerando maior liquidez dos ativos e agilidade operacional. Por exemplo, uma casa que tenha sua escritura digitalizada e compatível com a blockchain, pode ser transferida por meio de uma simples transação de sua propriedade digital para outra wallet, com contato direto entre comprador e vendedor e sem o envolvimento de agentes intermediários.
No setor industrial, a cadeia de suprimentos (supply chain) pode ter uma melhora essencial na comunicação entre as empresas de logística. Além disso, os dados nem sempre seguem os mesmos padrões, pois cada empresa de logística usa seus próprios termos. A tecnologia blockchain pode prover rastreamento em tempo real de uma cadeia logística (como datas e localizações) de um produto em específico. Ela também permite que vários agentes, incluindo varejistas, fornecedores e clientes, acessem informações a partir do banco de dados descentralizado. Isso pode ser aplicado ao transporte de contêineres marítimos e ao setor alimentício, por exemplo: um cliente poderia ver uma picanha no supermercado e, através de um QR Code, verificar sua autenticidade. Informações sobre o gado, como idade e peso, quando e onde foi abatido, além de todo o processo de transporte da carne, estarão disponíveis: desde a data em que o corte da peça foi feito até o dia em que chegou ao supermercado. Para empresas e consumidores, isso proporciona mais transparência e confiança no processo. Empresas como IBM e Walmart já atuam nesse setor.
Na saúde e assistência médica, uma das maiores dores do modelo atual é que os médicos, enfermeiros e as empresas de saúde não possuem por completo os dados de seus pacientes, como o histórico de prescrição de remédios, médicos, cirurgias feitas, alergias, condições especiais, entre outras. Estes dados normalmente são armazenados em registros internos de diferentes consultórios, hospitais e empresas de saúde, os quais não se comunicam entre si. Isso muitas vezes prejudica o processo de diagnóstico e/ou tratamento dos pacientes.
Com um sistema blockchain, todos esses dados poderão ser registrados em um mesmo lugar, de forma que todos os médicos possam acessá-los em tempo real, de forma mais segura, rápida e barata. O paciente poderá, antes, fornecer permissão por meio de sua assinatura digital para que o médico acesse seus dados em totalidade ou apenas uma fração deles, e por determinado período de tempo, controlando a privacidade de seus dados.
Atualmente, no setor de ingressos para eventos e shows, os grandes problemas em relação às vendas de ingressos são a falta de transparência dos pontos de vendas oficiais, a inflação e a falsificação de ingressos no mercado secundário por meio de cambistas. O cambismo virou um negócio lucrativo, revoltando fãs e torcedores em alguns dos maiores eventos realizados em 2022, como jogos da Copa Libertadores, Champions League, NBA, NFL e festivais como o Rock in Rio. O uso de tokens não fungíveis, espécie de criptomoeda com características únicas chamadas de NFTs, pode trazer mais transparência às vendas, por ser possível provar a autenticidade de um ingresso, identificando o agente emissor e a data, além da rastreabilidade, ou seja, por quais pessoas ele passou e quanto elas pagaram. Também pode permitir uma programabilidade: a possibilidade de o emissor receber royalties por cada revenda feita, por exemplo.
Já existem alguns exemplos em operação dessa tecnologia para venda de ingressos, como no evento musical Tomorrowland e nos jogos do clube de futebol italiano Lazio. Clubes nacionais como o Atlético Mineiro, Flamengo e Vasco da Gama também ensaiam um movimento em relação à adoção de ingressos digitais.
Por sua vez, no setor público, a tecnologia blockchain pode ser útil de diversas formas, tanto no sistema eleitoral, no gerenciamento de informações de dados, como na transparência na utilização de recursos públicos.
No sistema eleitoral, ela pode contribuir com o processo de apuração de votos, otimizando-o e gerando maior segurança e transparência. A partir do momento em que cada cidadão tenha sua identidade digital compatível com o sistema blockchain utilizado, pode-se aplicar um modelo de votação por meio de tokens. Dessa forma, o voto poderá ser completamente rastreável e instantaneamente contabilizado na apuração das urnas, ao invés de ser necessário uma contagem manual como ainda ocorre em diversos países. Vale lembrar que existem formas de implementar esse modelo e, ao mesmo tempo, manter a privacidade de voto de cada cidadão.
Enquanto isso, no gerenciamento de informações dos cidadãos, o setor público é responsável pela manutenção dos dados, tais como datas de nascimento, estado civil, documentos pessoais, patrimônio financeiro, entre outros. A tecnologia blockchain pode simplificar e unificar bastante a forma com que essas informações são armazenadas, colocando-as em uma mesma base de dados atualizada e em tempo real, ainda mais segura que o modelo de armazenamento atual.
Também é possível gerar mais transparência na utilização de recursos públicos. Atualmente, um dos maiores problemas do Brasil e de inúmeros outros países é a corrupção. A tecnologia blockchain pode ser utilizada para garantir que o rastro do dinheiro público possa ser visualizado de forma mais transparente. O orçamento público poderia ser acompanhado desde sua origem, contribuindo para a fiscalização e, consequentemente, para o combate à corrupção e ao desperdício de recursos públicos.
Para finalizar, outro setor que pode ser amplamente beneficiado pela tecnologia blockchain é a indústria musical. O modelo atual de streaming não oferece uma remuneração adequada aos artistas, sendo que as plataformas ficam com uma grande fatia dos lucros. Já existem aplicações baseadas em blockchain que conectam diretamente os artistas aos fãs, excluindo a empresa intermediária da equação.
Como visto, a revolução cripto está apenas começando e você tem muito para aprender. Então, comece a jornada conosco!
O primeiro mergulho no mundo da Web3. Como as criptomoedas, NFTs e metaverso irão mudar
as nossas vidas.
Primeira edição, Novembro de 2022.
Autor: João Kamradt
Colaboração: André Castelo, Henrique Ayello, Matheus Bonifácio e Rafael Lima.
Editora: W3Books
Revisão: Diane Southier
Capa: Polvo.lab
Licença: Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional (CC BY-NC-SA 4.0)
Assuntos: 1. Criptomoedas 2. Tokens e NFTs 3. Blockchain 4. Metaverso 5. Web3
Publicado em: https://viden.ventures/livro